quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Aumento do orçamento de Iporá reacende debate sobre aplicação dos recursos públicos

 


Foto: Professor Paulo Alves 

As gestões públicas geralmente iniciam o ano com planejamento e definição do orçamento. As prefeituras elaboram a Lei Orçamentária Anual (LOA), que é enviada ao Poder Legislativo. Esse instrumento define quanto o município pretende arrecadar ao longo do ano e estabelece onde e como os recursos públicos serão aplicados. Trata-se de uma lei fundamental para o funcionamento da administração pública.

A explicação é do professor Paulo Alves, da rede estadual de ensino, graduado em Gestão Pública e com experiência de dois mandatos como vereador em Iporá. Ele chama a atenção para a importância que a sociedade deve dar à Lei Orçamentária, por se tratar do principal planejamento financeiro do município.

Em relação a Iporá, Paulo Alves informa que o orçamento municipal para o ano de 2026 é de R$ 207.068.887,09 (duzentos e sete milhões, sessenta e oito mil, oitocentos e oitenta e sete reais e nove centavos). O orçamento entra em vigor em 1º de janeiro e segue até 31 de dezembro. Segundo sua análise, houve um acréscimo significativo em comparação com o ano anterior, quando o orçamento foi de aproximadamente R$ 166 milhões.

De acordo com o professor, o valor é calculado com base na média da arrecadação dos últimos anos, o que demonstra, segundo ele, que a arrecadação do município de Iporá está em crescimento. “Temos mais dinheiro em caixa”, afirma. Com esse argumento, Paulo Alves defende que não se justificam atrasos no pagamento de servidores públicos municipais ou a interrupção de serviços essenciais.

Ele alerta ainda que a sociedade deve acompanhar de perto a execução do orçamento, especialmente os vereadores, que têm a responsabilidade constitucional de fiscalizar a correta aplicação dos recursos públicos. O montante de R$ 207 milhões representa uma média aproximada de R$ 17 milhões por mês. “Não dá para fazer tudo o que o município precisa, mas dá para fazer muita coisa”, avalia.

Paulo Alves também defende a adoção do orçamento participativo, modelo que envolve a sociedade e os segmentos organizados na discussão da elaboração e, principalmente, da execução do orçamento, priorizando as reais necessidades da população. Segundo ele, esse mecanismo fortalece a fiscalização e contribui para a aplicação correta dos recursos públicos, atendendo aos anseios da comunidade.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Editorial — O papel da imprensa e o valor do jornalismo local

 


Editorial — O papel da imprensa e o valor do jornalismo local

Na foto: Pedro Claudio e Valdeci Marques, em final de 2025, avaliando publicação divulgada na página Oeste Goiano (oestegoiano.com.br).

A imprensa cumpre um papel essencial em qualquer sociedade democrática: informar, contextualizar, fiscalizar o poder e estimular o debate público. É por meio dela que fatos ganham sentido, versões são confrontadas e a população encontra subsídios para formar opinião. No entanto, ao observar o noticiário nacional, sobretudo nos grandes conglomerados de comunicação, percebe-se um fenômeno cada vez mais evidente: conteúdos praticamente idênticos circulando em diferentes plataformas, com pequenas variações de enfoque, linguagem ou título.

Publicações em portais como G1, UOL, Veja, IstoÉ e outros frequentemente apresentam as mesmas informações, estruturadas de forma semelhante, como se houvesse um roteiro previamente estabelecido. Muda-se a ordem dos parágrafos, ajusta-se o tom, mas o núcleo da narrativa permanece igual. A sensação é de que todos falam a mesma coisa, ao mesmo tempo, com pouca ou nenhuma informação realmente diferenciada. Não se trata, necessariamente, de “copiar”, mas de uma prática que privilegia a reprodução rápida do conteúdo já disponível, em detrimento da apuração aprofundada, da investigação própria e da busca por exclusividade.

Produzir matérias com enfoque distinto sobre o mesmo fato é, sem dúvida, mais econômico e menos arriscado. Exige menos tempo, menos recursos e quase nenhuma pesquisa avançada. Contudo, essa lógica empobrece o debate público e reduz a diversidade de interpretações, algo essencial para uma sociedade plural. Grandes veículos, justamente por disporem de estrutura, profissionais especializados e acesso às esferas de poder, poderiam — e deveriam — investir mais em reportagens exclusivas, análises originais e pautas que fujam do lugar-comum.

É nesse cenário que os veículos locais e regionais ganham relevância. O jornalismo do interior, mesmo com limitações técnicas, financeiras e de alcance, possui um diferencial inegável: a proximidade com os fatos, com as pessoas e com a realidade cotidiana. É ele que acompanha de perto os problemas da comunidade, debate questões locais, dá voz a quem raramente aparece no noticiário nacional e revela realidades que não cabem nas grandes manchetes.

É verdade que o jornalismo regional não dispõe da mesma expertise, nem do mesmo poder de influência dos grandes meios. Falta, muitas vezes, estrutura, reconhecimento e valorização. Ainda assim, há mérito e importância no chamado “jornalismo feito a machado”: aquele construído com esforço, persistência e compromisso, muitas vezes na simplicidade, sem ser simplório. Nessa prática, informar, orientar e até influenciar positivamente a sociedade torna-se possível, mesmo sem holofotes.

Assim seguimos na região Oeste de Goiás. Nem sempre valorizados como deveríamos, mas convictos de que resultados positivos são alcançados. O jornalismo local, quando exercido com responsabilidade e ética, cumpre sua missão fundamental: servir à comunidade, fortalecer a cidadania e manter viva a essência da imprensa — a de ser ponte entre os fatos e a sociedade.

Pedro Claudio

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Venezuela, Estados Unidos e o dilema do mal necessário.

 


Venezuela, Estados Unidos e o dilema do “mal necessário”

Por Pedro Claudio

Não é um assunto que esteja diretamente ligado à minha área de competência técnica. Ainda assim, como simples cidadão que vive em um país democrático — onde a liberdade de expressão é assegurada, desde que exercida com responsabilidade — sinto-me no direito de opinar, ou, como se diz popularmente, “dar meu pitaco”, a exemplo de milhões de pessoas que acompanham os acontecimentos internacionais.

O caso envolvendo Venezuela e Estados Unidos é complexo e cercado de versões, interesses e narrativas. A opinião que formo é construída a partir das informações a que tenho acesso: imprensa, análises de especialistas, redes sociais e comentários de terceiros. Trata-se, portanto, de uma visão leiga, mas nem por isso descompromissada com a realidade.

Diante desse conjunto de informações, a impressão que tenho é de que se realizou ali aquilo que muitos chamariam de um “mal necessário”. Alguém que tinha poder, capacidade e influência acabou agindo. Donald Trump agiu. Pelo que tudo indica, não consultou formalmente o Congresso norte-americano, mas certamente ouviu assessores próximos — e, como é de seu perfil, deixou que seu ego também tivesse peso na decisão.

As intenções por trás dessa ação são motivo de intenso debate. Teria sido uma tentativa de fazer justiça humanitária contra um regime acusado de se apoderar do poder e massacrar parte de sua população? Uma estratégia para conter o fluxo de entorpecentes em direção aos Estados Unidos? Uma demonstração de força geopolítica para deixar claro que nenhuma liderança deve contestar sua autoridade? Ou ainda um movimento calculado de olho nas riquezas naturais da Venezuela, país que concentra cerca de 17% das reservas de petróleo do planeta?

Fato é que Donald Trump foi ousado, petulante e, como poucos líderes contemporâneos, imprevisível. Nesse aspecto, guarda semelhanças com Vladimir Putin, que bombardeia a Ucrânia na tentativa de retomar territórios que considera seus. São líderes que agem à margem do consenso internacional quando acreditam que seus interesses estratégicos estão em jogo.

O grande problema, no entanto, são os efeitos colaterais dessas ações. Como reagirão Rússia, China e a União Europeia? Quais serão os desdobramentos diplomáticos, econômicos e militares? E onde entram os países da América Latina nesse tabuleiro?

A realidade é dura: por mais que a maioria dos países latino-americanos condene determinadas ações, sua influência prática é limitada. Em alguns casos, a reação pode até resultar em prejuízos econômicos, ao se indispor com uma potência global. Ainda assim, o ideal — e o desejável — é que não assumamos uma postura submissa, de “cão vira-lata” ou de mentalidade colonial. Não devemos aceitar o papel de quintal de nenhuma grande potência.

Ao mesmo tempo, é preciso cautela. “Ir devagar com o andor, porque o santo é de barro.” Não considero correto explorar ideologicamente essa situação para atacar adversários políticos internos ou para atiçar ainda mais a fogueira. Divergências políticas não devem servir de combustível para radicalizações irresponsáveis no cenário internacional.

Apesar de todas as ressalvas, continuo acreditando que alguma ação precisava ser tomada. Não é aceitável normalizar a tomada do poder pela força, a perpetuação de ditaduras e a supressão da vontade popular. A democracia — o poder do povo — deve ser um valor preponderante, inclusive quando se trata da “casa dos outros”.

Esse é um debate difícil, cheio de contradições e zonas cinzentas. Não há soluções simples. Mas silenciar diante de regimes autoritários também não parece ser uma opção justa ou sustentável.

sábado, 3 de janeiro de 2026

O uso do título “doutor” e os limites entre tradição e rigor profissional

 

O uso do título “doutor” e os limites entre tradição e rigor profissional

Por Pedro Claudio


Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais comum observar profissionais de diferentes áreas — especialmente da saúde, do direito e da estética — apresentarem-se publicamente como “doutor” ou “doutora”, seja em redes sociais, videochamadas ou materiais institucionais. Embora o fenômeno pareça banal, ele merece reflexão, pois envolve não apenas tradição e costume, mas também rigor técnico e ética profissional.

É inegável que médicos, odontólogos, advogados e outros profissionais com formação superior exercem funções de grande relevância social. São profissionais habilitados, legalmente autorizados a atuar e, muitas vezes, altamente qualificados em suas áreas. No entanto, é preciso distinguir reconhecimento social de titulação acadêmica. Na maioria dos casos, essas pessoas não possuem doutorado, título acadêmico obtido após a conclusão de um curso específico, com defesa de tese reconhecida pelo Ministério da Educação.

Ser chamado de doutor pela população, por clientes ou por pessoas do convívio social é algo natural e, muitas vezes, decorre de respeito, admiração ou tradição cultural. Outra situação, bem diferente, é a autodeclaração. Apresentar-se como doutor sem possuir o título acadêmico não parece sensato e pode transmitir uma ideia equivocada sobre a própria formação. Curiosamente, mesmo entre aqueles que possuem doutorado, é comum uma postura mais discreta, com a apresentação simples do nome, da profissão e da especialidade.

No caso da advocacia, há um elemento histórico relevante. O tratamento de “doutor” atribuído a advogados e advogadas remonta ao período do Império e consolidou-se como um costume jurídico no Brasil, ainda que não corresponda, necessariamente, a um doutorado acadêmico. Trata-se de uma exceção baseada na tradição, e não na regra geral da titulação universitária. Para as demais profissões, não há previsão legal semelhante que justifique o uso formal do título.

A banalização do termo “doutor” pode, inclusive, gerar desconfiança. Quando alguém se autointitula doutor sem possuir o título correspondente, cria-se a impressão de tentativa de afirmação artificial de autoridade, o que não contribui para a credibilidade profissional. Competência, ética e conhecimento se demonstram na prática, e não no uso indevido de títulos.

Por respeito, consideração ou admiração, muitas pessoas continuam a chamar determinados profissionais de doutor — especialmente médicos, odontólogos que, em muitos casos, são efetivamente doutores. Esse tratamento, quando parte do outro, é legítimo e compreensível. O problema reside na autoproclamação.

Em tempos de comunicação instantânea e exposição constante, vale a reflexão: apresentar-se de forma honesta, clara e coerente com a própria formação é sinal de maturidade profissional. Dizer “sou médica”, “sou odontólogo”, “sou advogado” ou “sou professor” não diminui ninguém. Pelo contrário, reforça a credibilidade e o respeito que toda profissão merece.

 Pedro Claudio, reflexão feita após ver nas redes sociais muita gente se chamando de doutor ou doutora.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Natal de 2025: entre a ignorância coletiva e o esquecimento do Evangelho

 

Natal de 2025: entre a ignorância coletiva e o esquecimento do Evangelho

Por Pedro Claudio Rosa
25 de dezembro de 2025


Neste Natal de 2025, somos confrontados por uma realidade inquietante: a ignorância, longe de ser apenas individual, assume contornos de um fenômeno coletivo, beirando a loucura social. Vivemos tempos em que a polarização entre “direita” e “esquerda” tornou-se uma espécie de dogma moderno, capaz de transformar até mesmo um simples conteúdo de marketing — como o caso de uma campanha publicitária das Havaianas — em motivo de euforia, revolta e histeria ideológica. A pergunta que ecoa é profunda e perturbadora: como chegamos a esse ponto?

Do ponto de vista sociológico, a sociedade contemporânea vive sob a lógica da simplificação extrema. Questões complexas são reduzidas a rótulos, slogans e trincheiras ideológicas. O outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como inimigo. A cultura digital, alimentada por algoritmos que reforçam crenças e radicalizam emoções, cria bolhas onde a intolerância se normaliza. Como advertiu o Papa Francisco, vivemos uma verdadeira cultura do descarte, que não elimina apenas coisas, mas também pessoas e ideias divergentes.

Sob o olhar psicológico, essa fissura coletiva revela insegurança, medo e uma profunda necessidade de pertencimento. Muitos aderem a interpretações extremadas não por convicção racional, mas por carência de identidade e sentido. O grupo passa a pensar pelo indivíduo; a crítica é substituída pelo impulso; o diálogo, pelo ataque. Como adverte o apóstolo Paulo:
“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente” (Rm 12,2).

A preocupação é legítima e urgente: da insanidade coletiva à violência é apenas um passo. A história ensina, de forma dolorosa, que guerras ideológicas e perseguições começam quando o outro deixa de ser reconhecido como irmão. O século XX oferece inúmeros exemplos em que a desumanização precedeu a barbárie. Quando a política se transforma em religião e a ideologia substitui a consciência, o amor se fragmenta e perde sua universalidade.

Do ponto de vista teológico, essa realidade torna-se ainda mais grave quando atinge os cristãos. Para quem professa a fé em Cristo, não pode haver barreiras ao amor. O mesmo Filho de Deus que nasceu em Belém veio para todos. “Porque Ele é a nossa paz: de ambos os povos fez um só” (Ef 2,14). No entanto, vemos cristãos transformando irmãos em inimigos por causa de convicções políticas, esquecendo-se das palavras do próprio Jesus:
“Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,44).

O Natal nos recorda que Deus não veio armado de poder, mas envolto em fragilidade. A manjedoura denuncia toda soberba ideológica. O Verbo se fez carne para reconciliar, não para dividir. “Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Onde falta amor, falta Cristo; onde reina o ódio, o Evangelho foi esquecido.

Talvez, em linguagem simbólica, estejamos mesmo precisando de um “medicamento coletivo” — não químico, mas espiritual e ético — capaz de apaziguar os ânimos e devolver à sociedade aquilo que parece cada vez mais escasso: inteligência iluminada pela fé. Um remédio que caia como chuva mansa sobre todos, sem distinção, restaurando a capacidade de pensar, dialogar e respeitar.

Esse “medicamento” já existe na tradição cristã: são os dons do Espírito Santo — Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus (cf. Is 11,2-3). Dons esquecidos por muitos, relativizados por alguns e, não raramente, substituídos por certezas rasas e paixões cegas.

Para 2026, o desejo que brota desta reflexão é profundamente cristão: que voltemos a caminhar sustentados pela Fé, pela Esperança e pela Caridade (cf. 1Cor 13,13). Que a fé ilumine a razão, que a esperança vença o medo e que a caridade — o amor verdadeiro — supere toda polarização.

Somente reaprendendo a olhar o outro como criatura de Deus, e não como adversário ideológico, conseguiremos atravessar o novo ano em paz. Como ensina a Escritura:
“Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Que o Natal de Cristo não seja apenas uma data comemorativa, mas um chamado permanente à conversão pessoal e coletiva. Só assim a sociedade encontrará novamente o caminho da lucidez, da tolerância e da verdadeira paz.

Fontes de pesquisa e embasamento

  • Bíblia Sagrada – Tradução Oficial da CNBB, 2ª edição, 2019
  • Catecismo da Igreja Católica – Edições CNBB / Vaticano
  • Papa FranciscoEvangelii Gaudium; Fratelli Tutti

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Rádio Rio Claro de Iporá (GO) 45 anos de história – 19 de dezembro de 2025

 Rádio Rio Claro marcou época ao movimentar Iporá com ações culturais, esportivas e sociais



A Rádio Rio Claro de Iporá, que completa 45 anos de existência no dia 19 de dezembro de 2025, construiu ao longo de sua trajetória uma história que vai muito além das transmissões radiofônicas. A emissora foi protagonista de inúmeras iniciativas que movimentaram a cidade e marcaram profundamente a vida social, cultural e comunitária da população.

Entre as ações promovidas pela rádio estão corridas de rua, gincanas entre estudantes, competições entre representantes de instituições, caminhadas acompanhadas por locução ao vivo e festivais musicais. Eventos que reuniam grande público e fortaleciam o sentimento de pertencimento e integração entre os moradores de Iporá.

Um jornal impresso da época registra um desses momentos históricos: o II Festival de Música Sertaneja de Iporá, promovido pela Rádio Rio Claro e realizado nos dias 22, 23 e 24 de maio, paralelo à festa tradicional da cidade.. O evento contou com a participação de duplas e trios do município e da região, com destaque para o Trio Horizonte, vencedor do festival. A expressiva presença popular consolidou o sucesso do certame, repetindo a boa repercussão da edição anterior.

O acervo histórico evidencia o papel da Rádio Rio Claro como agente cultural e social, atuando diretamente na promoção da arte, do lazer e da integração comunitária, indo além da informação diária.

Esse compromisso social também se manifestou em 1993, quando a emissora participou ativamente da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, popularmente conhecida como Brasil contra a Fome, idealizada pelo sociólogo e ativista Herbert de Souza, o Betinho. A Rádio Rio Claro mobilizou a comunidade em campanhas de doação, arrecadou alimentos e ajudou na formação de cestas básicas, integrando um dos maiores movimentos sociais já registrados no país.

Após 45 anos de história, a Rádio Rio Claro permanece como um dos principais símbolos da memória, da identidade e do desenvolvimento social e cultural de Iporá.

História da Rádio Rio Claro de Iporá (GO) 45 anos de história – 19 de dezembro de 2025

 


Um veículo de comunicação exerce papel essencial na formação e construção de uma sociedade. Muito do modo de viver, pensar e agir de uma comunidade nasce daquilo que ela ouve — das orientações, das informações e das vozes que ecoam pelo rádio.
 


Em Iporá, no Oeste de Goiás, um desses marcos é a Rádio Rio Claro, cuja trajetória se confunde com a própria história da cidade, acompanhando gerações e registrando momentos decisivos da vida local.

 As origens da Rádio Rio Claro

 

A Rádio Rio Claro AM Ltda foi inaugurada em 1980, fruto da iniciativa de dois visionários: o empresário Sebastião Alves Cruvinel e o político Adjair de Lima e Silva.

Sebastião Cruvinel destacou-se no ramo de eletrônicos e, posteriormente, no comércio de móveis, com a fundação da loja SAINEL, em 7 de novembro de 1969. A empresa manteve suas atividades até 18 de setembro de 1991. 

Adjair de Lima e Silva, advogado e economista, nasceu em Iporá em 7 de dezembro de 1943. Teve uma trajetória pública marcante: foi deputado estadual pela ARENA entre 1979 e 1983, secretário de Estado da Educação e Cultura no governo Ary Valadão (1980–1983) e, anos depois, secretário da Fazenda no Estado do Tocantins e na Prefeitura de Palmas, entre 2005 e 2008.

Unidos pelo ideal de dar voz à cidade e criar uma emissora de referência regional, buscaram um profissional com experiência em radiodifusão. Encontraram, em Mineiros (GO), o jovem Olívio Lemos Pereira Filho, que aceitou o desafio de montar a rádio do zero em Iporá. Assim nascia a Rádio Rio Claro.

A montagem da emissora e a estreia no ar

Olívio Lemos recorda que a rádio passou por cerca de 30 dias de preparação, mesmo antes de entrar oficialmente no ar. Durante esse período, a equipe recebeu treinamento intensivo.

“Na época, contratamos o senhor Manoel Pereira Nobre para a segurança — ele era o guarda da SAINEL e também da rádio”, lembra Olívio.

“O locutor chegava às 5h da manhã e ficava até as 8h, mesmo sem a emissora estar transmitindo. Depois eu assumia das 8h às 11h, e até o meio-dia havia um programa musical, seguido do famoso jornal ‘12ª Hora’. Tudo funcionava como se já estivéssemos no ar.”

 

Quando, finalmente, em 19 de novembro de 1980, a Rádio Rio Claro entrou oficialmente em operação, a reação da população foi imediata.

 

“Muitos ligaram perguntando como era possível, já que as vozes eram daqui, mas pareciam profissionais experientes. A admiração foi grande — fruto do nosso treinamento e dedicação”, conta Olívio.

 

A rádio rapidamente se tornou parte da vida da cidade.


“Foi propulsora de coisas magníficas. As pessoas dedicavam músicas umas às outras, iniciavam namoros e dali surgiram muitos casamentos. A Rádio Rio Claro ajudou a formar muitas famílias.”

 

A chegada da Igreja Católica

 

Com o passar dos anos, a emissora se consolidou como o principal veículo de comunicação da região. Em 1992, a Diocese de São Luís de Montes Belos, em parceria com a Congregação Redentorista de Goiás (C.Ss.R), adquiriu a Rádio Rio Claro.

 

A emissora deixou de ser uma empresa Ltda e passou a integrar o sistema de comunicação católico regional.

 

O interesse da Igreja nasceu do olhar visionário do Padre Wiro, religioso passionista holandês, que já utilizava um espaço diário de 15 minutos na emissora para evangelização. Ao saber da possibilidade de compra, ele procurou o então bispo diocesano, Dom Washington Cruz, e, com o apoio dos Redentoristas — já responsáveis pela Rádio Difusora de Goiânia —, reuniu recursos para concretizar o projeto.

 

Com isso, foi criada a Fundação Dom Stanislau Van Mellis, em homenagem ao primeiro bispo da diocese, grande entusiasta da comunicação e sonhador de um meio de evangelização popular.

 

Entre os pioneiros dessa nova fase estiveram João Izá de Souza, Romildo Pereira Silva, Paulo Telesse e Danilo Oliveira, que permanecem até os dias atuais, além dos padres Everson Faria de Melo, Rafael Vieira, Fábio Bento, Jesus Flores e César Moreira, de São Paulo, que colaborava ativamente, mesmo à distância.

 

Em um guia institucional sobre a emissora, o Padre Rafael Vieira escreveu a frase que sintetiza a missão da rádio:

 

“Comunicar promovendo comunhão.”

 

E foi exatamente isso que a Rádio Rio Claro passou a fazer: acompanhar o homem e a mulher do campo, o cidadão urbano, promovendo formação, informação e entretenimento.

 

O rádio e a voz da cidade

 

Durante muitos anos, a Rádio Rio Claro foi o único veículo de comunicação de massa em Iporá. Além dela, a Igreja mantinha um serviço de som instalado na torre da Igreja Matriz, por onde eram transmitidos avisos à comunidade.

Havia também o boletim comunitário escrito pelo Padre Wiro, a propaganda volante que circulava pelas ruas e até um sistema de som na rodoviária — formas simples, mas fundamentais, de comunicação local. 

Ignorar a importância da Rádio Rio Claro é deixar uma lacuna na história de Iporá. A emissora foi — e continua sendo — um espaço de informação, debate e identidade cultural. 

O jornalismo sempre foi a alma da rádio, presente em eventos sociais, inaugurações, eleições, jogos esportivos e debates políticos, formando gerações de comunicadores.

 

Profissionais que marcaram época

O pioneiro Olívio Lemos foi uma referência, lembrado pela exigência e pelo estilo firme, moldando o profissionalismo e a qualidade da programação que marcaram época.

Ao seu lado atuaram nomes importantes como Ademir Lima (irmão de Adjair de Lima), Roberto Lopes, Valteir Dias dos Santos, Vilton Pereira, Valdeci Pereira Borges, Donizete Pontes, Altamiro Veloso, Edson Rodrigues, Genuison Batista, Lázaro Faleiro de Miranda, Celso Henrique, Rosângela Eduardo, entre outros. 

Da fase iniciada em 1987, destaca-se Pedro Cláudio, que permanece até hoje, em 2025, atuando no jornalismo da emissora.

 

Os novos tempos e os desafios atuais

 

Durante décadas, a Rádio Rio Claro manteve uma estrutura jornalística sólida, com equipe de repórteres, unidade móvel e presença constante nas ruas.

Essa fase se estendeu até meados de 2023, quando uma nova gestão adotou um formato mais enxuto, concentrando funções em menos profissionais e reduzindo o tempo de jornalismo local a 30 minutos diários, além de boletins informativos.

Essas mudanças refletem um fenômeno mundial: o impacto das redes sociais e da internet sobre as rádios tradicionais. A audiência se fragmentou, os custos aumentaram e muitas emissoras precisaram se reinventar.

Mesmo assim, a Rádio Rio Claro mantém sua relevância, sendo a única emissora comercial de Iporá, ao lado de uma rádio comunitária e outra educativa, ambas com funcionamento e faturamento limitados por lei.

 

A presença da Igreja e o legado

 

Atualmente, a emissora segue sob a responsabilidade da Diocese de São Luís de Montes Belos, presidida por Dom Lindomar Rocha Mota.

 

A gestão conta com o Padre Wallison, responsável pela administração econômica, e com diretores locais em cada cidade. Em Iporá, o Padre José Moreira, pároco da Paróquia Imaculada Conceição, foi convidado e aceitou a missão de dirigir a Rádio Rio Claro. Nessa nova fase, a emissora já contou com a direção de João Izá, Diácono Manoel Messias, Diácono Carlos Alberto e Lidiane Oliveira.

Além da Rádio Rio Claro, fazem parte da rede diocesana as rádios Vale da Serra, em São Luís de Montes Belos, e Serra Azul, em Caiapônia.

 Patrimônio histórico e afetivo de Iporá

 

Mais que um meio de comunicação, a Rádio Rio Claro é um patrimônio histórico e afetivo de Iporá. Um pedaço vivo da memória coletiva, que ajudou a formar a identidade da cidade e que ainda hoje resiste, adaptando-se aos novos tempos sem perder sua essência: informar, formar e acompanhar a comunidade.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Eu ainda estou aqui: Pedro Claudio e uma vida dedicada ao rádio

 

Pedro Claudio e sua história






Ao final de 2025, olho para trás e me permito refletir.
Antes de tudo, constato algo simples e profundo: eu ainda estou aqui.

Ainda estou aqui

Ao final de 2025, olho para trás e faço um exercício simples — e profundo. Constato que ainda estou aqui. Pode parecer pouco, mas não é. Em tempos de tanta pressa, tanto esquecimento e tanta substituição, permanecer é quase um ato de resistência.

Cheguei à Rádio Rio Claro de Iporá em abril de 1987. O rádio ainda era feito de botões, discos, cartucheiras e vozes. Não havia internet, nem computador, nem essa pressa elétrica que hoje nos atropela. A notícia chegava pelo telefone, pelo rádio de ondas curtas, pelas fitas gravadas. O mundo era ouvido antes de ser visto.

Iporá também era outra. A cidade vivia seus próprios ciclos políticos, suas instabilidades e reinvenções. Prefeitos iam e vinham, mandatos eram interrompidos, intervenções aconteciam. O poder mudava de mãos, mas o rádio permanecia. Sempre ali, testemunha silenciosa — e falante — do cotidiano.

Enquanto isso, o mundo dava voltas rápidas. A União Soviética ainda existia e Mikhail Gorbachev anunciava o fim de uma era. O Brasil se assustava com o Césio-137 em Goiânia, respirava os últimos ares da ditadura, recuperava a liberdade de imprensa, elegia Tancredo Neves, chorava sua morte e aprendia a conviver com a democracia sob José Sarney. Em 1988, a Constituição nascia — e eu já estava no rádio, contando tudo isso do jeito que dava.

Entrei na emissora por meio de um concurso anunciado no ar. Pediam experiência, estudo, segurança. Eu não tinha tudo isso, mas tinha vontade. Disputei a vaga com mais de cem candidatos. Passei. Fiquei. Trabalhei meses sem carteira assinada, até que em maio de 1988, aos 23 anos, me tornei oficialmente parte da casa. E nunca mais saí.

Vi o rádio mudar de roupa muitas vezes. Do vinil ao CD, do MiniDisc ao digital. Vi o improviso virar técnica, a curiosidade virar método, a intuição virar responsabilidade. Fiz de tudo um pouco: locução, reportagem, edição, pauta, operação de áudio. Arrisquei até narrar futebol — erro prontamente corrigido por um conselho sábio de um tio que hoje mora na saudade. O rádio também ensina a reconhecer limites.

Com o microfone na mão, acompanhei histórias duras e histórias humanas. Atentados, crimes, tragédias, disputas políticas, quedas e ascensões. Estive em Israelândia, Amorinópolis, Arenópolis, Piranhas, Jaupaci. Vi prefeitos surgirem, caírem, se reinventarem. Vi cidades crescerem, sofrerem, resistirem. Vi o Oeste goiano escrever sua própria história — e tentei narrá-la com o cuidado de quem sabe que palavras ficam.

Nesse caminho, vivi a vida. Namorei, casei, tive filhos. Fiquei viúvo — uma dor que não se explica, apenas se carrega. Casei novamente. Duas mulheres marcaram profundamente minha trajetória. Com elas, aprendi que a vida não pede permissão para mudar de rumo.

Agora, com a aposentadoria no horizonte, me pergunto quantas histórias contei e quantas precisei guardar. Quantas vezes me calei por ética. Quantas vezes me questionei se aquela notícia ajudaria alguém. Não sei quantas vezes acertei ou errei. Sei apenas que continuei. Atualizado, atento, presente.

Talvez um dia seja hora de passar o bastão. Mas ainda não. Ainda há tempo. Tempo de ouvir, de contar, de conectar o local ao mundo. De viver na aldeia sem perder o global. De entender que o que acontece aqui — na rádio, na cidade, na vida — ecoa mais longe do que se imagina.

Por isso sigo.
Com o rádio ligado.
Com a memória viva.
E com a certeza tranquila de quem pode dizer, sem medo: ainda estou aqui.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Euforia no plenário revela crise simbólica da representação política no Brasil

 


Euforia no plenário revela crise simbólica da representação política no Brasil

Por Pedro Claudio

A cena registrada no plenário da Câmara dos Deputados nesta semana — um grupo de parlamentares comemorando efusivamente o livramento da cassação da deputada Carla Zambelli, atualmente presa na Itália após fugir do Brasil — é, no mínimo, um retrato curioso da política brasileira contemporânea. Interessante, intrigante e, para alguns, até hilário. Mas também revelador.

O episódio em si envolvendo a deputada não é novidade. Problemas de saúde já foram admitidos por ela e por aliados, e seu histórico recente inclui atitudes publicamente reprováveis, como perseguir um jornalista armada pelas ruas — gesto que permanece sem explicação convincente. A pergunta “o que será que ela queria?” ainda ecoa.

No entanto, o foco aqui não é a parlamentar, mas o comportamento de seus colegas. Deputados pulando, vibrando, celebrando como torcedores diante de um gol decisivo. A pergunta que se impõe é: o que exatamente foi comemorado? Uma vitória contra a Justiça? Uma vitória da oposição sobre o governo? Ou a vitória de um grupo político sobre o bom senso?

Para quem insiste em pensar com independência, a cena oferece uma oportunidade de reflexão sociológica sobre o estado da política nacional. Não é exagero dizer que o comportamento exibido é quase um símbolo da desconexão entre representantes e representados. Parece faltar um parafuso — não individualmente, mas na cabeça coletiva de parte do Parlamento.

Nos últimos anos, o país assiste à defesa pública de práticas que antes eram vistas como inaceitáveis. Parlamentares que, em nome de uma liberdade mal interpretada, justificam e incentivam a propagação de fake news como se mentir fosse um direito constitucional. Outros atacam figuras que se dedicam a quem mais precisa, como o trabalho humanitário do padre Júlio Lancellotti. Há ainda aqueles que chegam ao ponto de defender medidas que prejudicariam o próprio Brasil, como no caso da disputa comercial envolvendo os Estados Unidos e a taxação de produtos estrangeiros.

Essas iniciativas, quase sempre de vida curta, ainda assim produzem efeitos profundos. Plantam na sociedade a ideia de que o errado pode ser certo; que a desinformação é opinião; que o absurdo merece espaço. Alimentam, pouco a pouco, uma espécie de ruptura coletiva, cultural e moral.

Opinar é um direito. Liberdade é essencial. Mas liberdade sem responsabilidade é só caos disfarçado de bravura.

A comemoração sem sentido que tomou conta do plenário é, no fundo, um espelho incômodo. Mostra o vazio que algumas lideranças insistem em festejar — e revela, com nitidez, o desafio de reconstruir no Brasil um ambiente político guiado por seriedade, racionalidade e compromisso com o interesse público.

Porque, no final das contas, estavam comemorando o quê? O país ainda não sabe. Mas a cena fala por si.

 

sábado, 6 de dezembro de 2025

Como exercemos e sofremos a influência do poder na política brasileira

 

Análise jornalística – Polarização brasileira sob a lente da ciência política

O anúncio da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro reacendeu, nas redes sociais, um fenômeno que já se tornou marca da política brasileira contemporânea: a polarização estruturada em torno de dois polos carismáticos — o lulismo e o bolsonarismo. Os comentários coletados nas plataformas digitais, repletos de frustrações, ironias, receios e acusações, revelam não apenas uma disputa eleitoral, mas um processo mais profundo de construção simbólica do “nós contra eles”, conceito amplamente discutido por pensadores da ciência política e da filosofia política.

Polarização como método e como narrativa

A polarização não é apenas um efeito colateral das redes sociais; ela se consolidou como método político.  Pelo que tenho observado no Brasil, o campo político se organiza a partir da distinção entre amigo e inimigo. Na atualidade essa fronteira se expressa na dicotomia Lula/Bolsonaro que, como apontam os comentários analisados, deixou pouca margem para construção de alternativas.

A reação de parte da direita à escolha de Flávio Bolsonaro, vista como decisão personalista e dinástica — “coronelismo disfarçado”, como escreveu um internauta — evidencia uma crítica que transcende o episódio: a percepção de que ambos os polos dependem um do outro para manter viva a lógica de confronto, alimentando identidades políticas rígidas e bloqueando a emergência de projetos moderados e inovadores.

O voto aprisionado e o personalismo

Historicamente, o Brasil convive com estruturas políticas personalistas. Da “política dos governadores” ao coronelismo, das oligarquias regionais à formação dos grandes líderes carismáticos, a política brasileira tende a gravitar em torno de figuras, não de programas. A citação recorrente ao sobrenome Bolsonaro — e também ao de outros atores como Sarney ou Caiado — reforça essa crítica: a ideia de que famílias permanecem no topo do poder porque exploram capital político acumulado, não porque representam renovação.

Dentro desse quadro, a expectativa frustrada em torno do nome de Tarcísio de Freitas, visto por muitos como gestor técnico e possível ponte entre mercado, centro-direita e eleitores desencantados, simboliza o desejo por um “pós-polarização” que ainda não encontrou expressão competitiva.

Racionalidade enfraquecida e comportamento eleitoral

Do ponto de vista da ciência política comportamental, os comentários ilustram um fenômeno bem documentado: a decisão política baseada mais em afetos do que em racionalidade programática. A literatura de psicologia política — de autores como Jonathan Haidt e Drew Westen — demonstra que emoções como medo, indignação e ressentimento moldam preferências políticas com mais força do que propostas concretas.

Os relatos mostram exatamente isso: medo do retorno de Lula, decepção com o bolsonarismo, descrença na classe política e esperança quase messiânica em “um nome salvador”. O eleitorado, ao oscilar entre rejeição e fidelidade afetiva, acaba contribuindo para a manutenção das forças que critica — fenômeno conhecido como “voto negativo” ou voto contra o inimigo, mais do que a favor de um projeto.

O ciclo histórico da repetição



Filósofos como Nietzsche e historiadores como Hobsbawm observam que sociedades em crise tendem a repetir padrões políticos, mesmo sabendo de seus resultados. No Brasil, a recorrência de velhas lideranças e velhos conflitos sugere uma dificuldade coletiva de romper ciclos. A insistência em Lula e Bolsonaro, conforme apontam os internautas, não deriva apenas da força dessas lideranças, mas da ausência de investimento social e político em alternativas estruturadas.

Esse ciclo é reforçado pelas redes sociais, que amplificam indignações, confirmam vieses e reduzem a reflexão crítica. O espaço digital, que poderia diversificar o debate, termina por segmentá-lo e radicalizá-lo.

A necessidade de romper o padrão

Ao final, a crítica que emerge dos comentários — ainda que caótica, emocional e contraditória — converge para um ponto: a urgência de pensar e agir politicamente de forma diferente. A sociedade parece reconhecer, ainda que intuitivamente, que está presa em um jogo ideológico simplificado que confunde defesa de valores com manipulação emocional, e que substitui debate público por lealdades pessoais.

Se a democracia depende de pluralidade, alternância de poder, racionalidade pública e instituições fortes, a manutenção dessa polarização permanente enfraquece cada uma dessas bases. O desafio, portanto, não é apenas escolher novos nomes, mas reconstruir práticas políticas e cognitivas menos reativas e mais deliberativas.

Em um momento em que “tempos sombrios” e “penumbra política” são metáforas recorrentes nos comentários, a saída passa pela ampliação da consciência política, pela formação crítica do eleitor e pela capacidade de superar o personalismo que historicamente bloqueia a inovação no Brasil.

Pensar diferente e agir diferente, talvez seja o primeiro passo para romper um ciclo que já dura mais de uma década — e que tende a se aprofundar enquanto continuarmos olhando a política apenas pelo espelho das paixões e das rivalidades.