domingo, 23 de novembro de 2025

Cristo Rei: O Julgar de Deus e o Julgar dos Homens

 

Cristo Rei: O Julgar de Deus e o Julgar dos Homens


Por Pedro Claudio Rosa — Festa de Cristo Rei, 2025

É sempre instigante comparar a mente humana, com suas percepções limitadas e juízos de valor influenciados pela cultura, pela moral e pelos costumes, com aquilo que Deus nos revela nas Sagradas Escrituras. Muitas vezes, ao confrontarmos nossos critérios com a Palavra divina, percebemos o quanto somos pequenos diante do mistério de Deus.

Neste domingo, dia 23, a Igreja Católica encerra o Ano Litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei do Universo — uma espécie de “31 de dezembro espiritual”. É o momento em que olhamos para Cristo como o Senhor do tempo, da história e do destino humano.

O Evangelho proposto hoje, Lucas 23,35-43, nos apresenta um paradoxo desconcertante:
Como pode o Rei do Universo passar por humilhações?
A cena da cruz, onde Cristo é insultado, ferido e ridicularizado, confronta nossa ideia humana de poder. Queremos um rei forte, dominador, capaz de impor sua força. Mas Cristo reina servindo, salva perdoando, governa amando.

A liturgia de Cristo Rei  nos faz recordar o Domingo de Ramos, quando se canta:
“Esperavam um grande Rei que fosse forte, dominador...”
E, no entanto, Ele entra humilde, montado num jumentinho, contrariando expectativas e desafiando a lógica humana.

Outra passagem que nos provoca reflexão é Mateus 20,1-16, a parábola do Reino dos Céus. Ali, Jesus derruba nossos critérios de mérito e recompensa: os últimos recebem como os primeiros, e o dono da vinha pergunta:
“Estás com inveja porque eu sou bom?”
O Reino de Deus, portanto, não se molda ao nosso senso de justiça limitada, mas à justiça misericordiosa de Deus.

É por isso que, embora seres humanos, Igreja e cristãos julguem uns aos outros, ninguém possui a certeza do julgamento de Deus. Ele vê o que nós não vemos, conhece o que não conhecemos.

Sim, existem trechos da Escritura que iluminam a autoridade dada à Igreja, como Mateus 16,19 e Mateus 18,18, onde Jesus fala do poder de ligar e desligar. Contudo, mesmo com essa autoridade, permanece o risco de o homem apropriar-se do que é divino, julgando, condenando e, às vezes, executando sem misericórdia.

No entanto, o julgador também será julgado.
A pena que hoje se cumpre na terra pode ter reflexos em outras dimensões da existência — como acreditam cristãos e muitos que, mesmo não sendo cristãos, reconhecem a existência de uma divindade.

Em resumo:
O julgamento feito “em nome de Deus” por instituições religiosas ou por seus membros pode ser equivocado. Mesmo estudando, relendo e aprofundando-se nas Escrituras, a visão humana jamais alcança a totalidade do olhar divino.

Diante disso, penso que cada pessoa deve viver segundo sua consciência, mas com um compromisso claro:
– não prejudicar o outro;
– não destruir reputações;
– não tirar alguém de seu caminho;
– não tentar ser dono do destino alheio.

Não somos senhores do destino de ninguém.

Que tenhamos sabedoria para viver a liberdade como Deus deseja:
liberdade para escolher o bem, para proteger a vida, para seguir o propósito divino.

Ao encerrarmos mais um ano espiritual nesta semana, é tempo de olhar para trás, reconhecer erros e assumir o compromisso de não repeti-los. Que 2026 seja um tempo novo — e não apenas “remendo novo em pano velho”, como alerta o Evangelho.

Que venha até nós uma nova era:
uma era de paz, de consciência, de reconciliação e de fidelidade ao que Deus sonha para nós.

Feliz Ano Novo Litúrgico. Feliz 2026.

Por Pedro Claudio Rosa — 23 de novembro de 2025

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Mankeeping, fragilidade humana e o desafio de saber viver

 


Mankeeping
, fragilidade humana e o desafio de saber viver

Por Pedro Claudio

O termo mankeeping tem sido utilizado em estudos contemporâneos para descrever um movimento de ressignificação masculina, especialmente entre homens formados em famílias tradicionais do século XX. Ao contrário do antigo paradigma que associava fragilidade ao universo feminino, as pesquisas atuais demonstram que a fragilidade é uma condição humana, não de gênero. Homens e mulheres carregam carências, afetos interrompidos, inseguranças e necessidades emocionais que se revelam de forma diferente, dependendo de como cada um foi constituído emocionalmente.

Em uma revisão publicada no Journal of Men’s Studies (2021), pesquisadores destacam que muitos homens de gerações anteriores foram educados para “performar fortaleza”, suprimindo emoções e vulnerabilidades, enquanto hoje se observa um esforço crescente para reaprender a lidar com afetos, estabelecer vínculos saudáveis e buscar apoio emocional. É justamente isso que o conceito de mankeeping evidencia: o trabalho interno que o homem moderno precisa realizar para cuidar de si e dos seus vínculos, diferindo do antigo modelo que o colocava quase exclusivamente no lugar de provedor, e não de participante emocional da vida.

Outros estudos, como os de Brené Brown sobre vulnerabilidade (2014) e os de Niobe Way sobre amizades masculinas (2011), mostram que homens que aprendem a compartilhar emoções, pedir ajuda e construir redes de apoio apresentam maior saúde mental, menor risco de depressão e melhor qualidade de vida. A conclusão é clara: ninguém foi feito para viver isolado.

Assim, torna-se evidente que estar sozinho, seja homem ou mulher, não é natural para a maioria das pessoas. Somos seres relacionais. A felicidade pode até ser individual, mas é profundamente facilitada quando compartilhada. Ter alguém para trocar ideias, caminhar junto, dividir o cotidiano – seja um parceiro, uma parceira, amigos, grupo religioso, comunidade ou família – é um dos pilares da saúde emocional.

Mas existe uma questão inevitável:
e quando os gênios não se comprazem? E quando a convivência, em vez de nutrir, desgasta?
Esse é o grande desafio das relações humanas. Em momentos assim, não há respostas prontas. Há trabalho, diálogo, maturidade e a decisão conjunta de reconstruir laços.

Roberto Carlos cantou: “É preciso saber viver”, em música escrita por Roberto e Erasmo Carlos. E talvez esse seja o maior aprendizado do nosso tempo. Saber viver, hoje, significa também saber se relacionar em meio a um mundo que nos aproxima e nos distancia ao mesmo tempo. As redes sociais conectam, mas não substituem a presença; aproximam, mas frequentemente nos isolam. Nas famílias, o tempo para encontros e visitas raramente existe, salvo entre pais e filhos que se cruzam por obrigação ou necessidade.

Por isso, é urgente estudar, analisar e compreender a própria vida emocional, para não cair no “buraco negro” da solidão contemporânea – esse lugar onde ninguém nos encontra, onde o silêncio se torna um castigo e o afeto, uma saudade eterna. Sem o abraço de um parceiro, sem a presença de uma parceira, sem o amparo de uma comunidade, sem alguém para nos encontrar, corremos o risco de fracassar emocionalmente, mesmo que todas as outras áreas pareçam estar em ordem.

Que sejamos, então, um pelo outro. Que quem constituiu família lute por ela. Que diante das adversidades, prevaleçam o diálogo, a escuta e a coragem de se manter juntos. Desistir do outro não costuma ser o melhor caminho.

Sigamos na fé, na coragem e na disposição de viver aquilo que sempre foi o mais precioso: a essência humana de se relacionar, de amar e de ser amado.

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Cuidado para não ser manipulado com promessas



O versículo de Lucas 11,9“Peçam e lhes será dado; busquem e encontrarão; batam e a porta lhes será aberta” — costuma ser proclamado como garantia de que a persistência na fé sempre produzirá resultados imediatos. Entretanto, em muitos contextos religiosos, o texto é frequentemente reduzido a um slogan motivacional para atrair fiéis e estimular práticas de devoção vinculadas a templos, campanhas e líderes carismáticos.

O problema não está na promessa bíblica, mas na forma como ela é interpretada e utilizada. A persistência recomendada por Jesus não é uma técnica espiritual para “convencer” Deus, nem um mecanismo automático de recompensa. É um chamado à confiança profunda, madura, que nasce de uma relação sincera com o Pai — não de pressões externas, manipulações emocionais ou discursos que exploram fragilidades humanas.

Infelizmente, muitos que atravessam momentos de dor, crise ou solidão tornam-se alvo fácil de estruturas religiosas interessadas mais em sua adesão do que em sua libertação. A promessa de portas abertas acaba sendo instrumentalizada para gerar dependência institucional: “Se você não vier, não receberá; se não participar, não será atendido; se não contribuir, sua bênção não chega.” Esse desvio esvazia o sentido do Evangelho e confunde o fiel, que passa a associar Deus à igreja, ou pior, a Deus ao líder religioso que controla o acesso ao sagrado.

É preciso, portanto, um discernimento espiritual lúcido: Deus não é propriedade de denominação alguma. Nem todo apelo religioso é sinal de cuidado; nem toda promessa de milagre é expressão do Reino. A verdadeira persistência da fé não é insistir em ambientes que ferem, exploram ou manipulam, mas insistir na busca por um Deus que liberta, cura e respeita a dignidade humana.

Persistir, sim — mas persistir em Deus, não em armadilhas espirituais.
Bater à porta, sim — mas a porta que conduz à verdade e não à dependência.
Buscar, sim — mas buscar aquilo que o Evangelho realmente oferece: vida plena, consciência crítica e liberdade.

Porque a resistência que a persistência quebra não é a resistência de Deus, mas a nossa: resistência em amadurecer, em discernir, em libertar a fé daquilo que tenta aprisioná-la.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Por que Participar de Encontros Religiosos?

 

Reflexão Teológico-Filosófica: Por que Participar de Encontros Religiosos?

Por Pedro Claudio


Quais são, afinal, as verdadeiras motivações que me levam a participar de eventos religiosos, encontros espirituais de fim de semana ou mesmo de breves momentos de oração e convivência comunitária? O que realmente busco quando aceito um convite ou decido, por conta própria, estar presente? Entretenimento? Um simples refúgio? A busca de uma conquista pessoal, um aprendizado, ou um reencontro com a fé que, por vezes, se distancia no corre-corre da vida?

Essas perguntas, mais do que retóricas, são espelhos. Refletem o que se passa em nosso interior e revelam o modo como vivemos nossa espiritualidade. Participar de um evento religioso pode, sim, ser um momento de profunda renovação interior, uma pausa necessária para rever atitudes, reorganizar pensamentos, reencontrar o sentido do servir e do amar. Pode ajudar a resolver conflitos pessoais, fortalecer a fé e inspirar um novo olhar sobre a família, o trabalho e as relações humanas.

Entretanto, há de se reconhecer: nem todos os que participam o fazem com a mesma disposição de alma. Alguns se sentem obrigados, vão para “marcar presença”, para serem vistos e reconhecidos; outros, para ver pessoas, socializar, sentir-se incluídos. Há também os que buscam um momento sincero de encontro com Deus — e esses, quando o fazem com coração aberto, costumam sair diferentes, transformados.

Vivemos tempos em que a fé muitas vezes se mistura ao espetáculo. Nas redes sociais e nos convites divulgados com entusiasmo, os comunicadores prometem experiências profundas: “Você vai sentir a presença de Deus!” — dizem, com a voz firme e a certeza quase publicitária. Pregadores, evangelizadores e celebrantes são apresentados como representantes diretos de Cristo, como se a graça dependesse da performance humana e não da abertura interior de quem crê.

Não há problema em se alegrar, em se emocionar, em celebrar a fé com intensidade. Mas é preciso discernimento. A participação em eventos religiosos deve ser um ato livre, consciente, que nasce do desejo genuíno de se aproximar do sagrado — e não do medo de ser julgado, da vontade de agradar líderes, ou de satisfazer o ego de quem busca aplausos e visibilidade.

A fé verdadeira não se mede por quantidade de encontros frequentados, mas pela qualidade da transformação interior que esses encontros provocam. Participar, portanto, não é “fazer número”, é fazer sentido. É permitir que a experiência toque o coração, desperte a consciência e gere frutos no cotidiano: na paciência, no perdão, no respeito, na compaixão.

Vamos pensar? Nossa capacidade cognitiva é limitada, falha, sujeita a enganos e ilusões — e por isso mesmo precisamos cultivar o discernimento espiritual. Nem todo entusiasmo é fé; nem toda emoção é encontro com Deus. Participe se for importante para você, se sentir que há algo ali que alimenta sua alma e lhe conduz à verdade.

Não sejamos ingênuos: a fé é caminho, não espetáculo. E participar dela, com sinceridade e propósito, é deixar-se transformar por dentro — não para ser visto pelos outros, mas para ver melhor a vida, o próximo e o próprio Deus.

 


domingo, 2 de novembro de 2025

Finados: dia de pensar a morte e planejar a vida

 

Dia de Finados (2 de novembro 2025)

Por Pedro Claudio




Hoje, 2 de novembro, Dia de Finados, a Igreja e a sociedade fazem uma pausa para lembrar com carinho e fé aqueles que já partiram. É um dia de saudade, mas também de esperança.

Pensar na morte pode parecer algo triste, mas, na verdade, é uma forma de valorizar a vida. Quando lembramos que o tempo é curto, aprendemos a viver melhor — a amar mais, perdoar, cuidar de quem está ao nosso lado e buscar o que realmente tem sentido.

A tradição cristã ensina que a morte não é o fim, mas passagem para a vida plena junto de Deus. Por isso, visitar o cemitério, acender uma vela ou fazer uma oração é também renovar a fé na ressurreição e na comunhão eterna.

Neste Dia de Finados, a mensagem é clara: viver bem é o melhor jeito de estar preparado para partir em paz.
Pense nisso: Finados é o dia de pensar a morte... e planejar a vida.

Neste Dia de Finados, a Igreja Católica celebra com fé e esperança a memória dos fiéis defuntos. É um momento de recolhimento, de oração e de lembrança daqueles que já partiram desta vida. Fazemos memória dos que foram antes de nós, com a confiança de que suas almas estão abrigadas junto de Deus. O corpo é matéria, volta ao pó, mas a alma — essência espiritual — permanece viva e é acolhida no mistério divino.

A Igreja, ao longo dos séculos, refletiu profundamente sobre essa realidade: o ser humano é constituído de corpo e alma. Com a morte, há uma separação — o corpo se desfaz, mas a alma passa a viver em outra dimensão, na presença de Deus. É uma questão de fé, mas também de esperança. Essa crença foi sustentada e amadurecida com o tempo, tornando-se central não apenas na teologia católica, mas também em muitos outros seguimentos religiosos cristãos e até não cristãos.

As leituras da liturgia deste dia — Sabedoria 3,1-9; Apocalipse 21,1-5a.6b-7; e Lucas 7,11-17 — nos ajudam a compreender o fundamento dessa fé. No livro da Sabedoria, encontramos palavras de consolo: “As almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento as atingirá”. É uma afirmação que transcende o medo da morte e revela a certeza do amor de Deus que acolhe seus filhos.

No Apocalipse, São João nos conduz a uma visão grandiosa: “Vi um novo céu e uma nova terra”. Ele nos convida a contemplar a realidade definitiva, onde “Deus enxugará toda lágrima dos olhos”. Muitos interpretam essa passagem como a recepção da alma no céu. Porém, uma leitura mais profunda, teológica e espiritual, mostra que essa visão é também o anúncio da plena comunhão com Deus — não apenas individual, mas de toda a criação redimida. É a revelação da vitória do amor sobre a morte, da vida sobre o pecado.

E no Evangelho de Lucas, Jesus se compadece da viúva de Naim e devolve à vida seu filho único. Esse gesto manifesta o poder de Cristo sobre a morte e antecipa o que a fé cristã proclama: a ressurreição. “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” — diz o Senhor. É uma palavra que ecoa até hoje em cada coração ferido pela saudade.

Cada um vive sua fé e seu modo de compreender o mistério da morte. Mas, para nós cristãos, ela não é o fim. A morte foi vencida pela ressurreição de Cristo. No Credo professamos: “Creio na ressurreição da carne, na vida eterna”. Assim, acreditamos que todos os que morreram em Cristo ressuscitarão e participarão da comunhão dos santos, quando Deus será tudo em todos.

Independente da crença de cada pessoa, a morte, a existência da alma e o destino último do ser humano permanecem como mistérios. Diante deles, o que nos resta é a fé, a esperança e o amor. Que neste Dia de Finados, ao lembrarmos nossos entes queridos, possamos também renovar a certeza de que a vida não termina — ela se transforma, e em Deus encontra sua plenitude.

“As almas dos justos estão nas mãos de Deus.” (Sb 3,1)

Pedro Claudio, jornalista, diácono permanente 

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ouvindo, lendo, refletindo e aprendendo para melhor viver

 

Por Pedro Cláudio – ouvindo, lendo, refletindo e aprendendo para melhor viver


Vivemos tempos em que as vozes religiosas, sobretudo as das correntes neo-protestantes e pentecostais, anunciam com veemência: “Jesus está voltando”. Os sinais do tempo, dizem eles, apontam para o fim. Guerras, desastres naturais, desordem moral e espiritual seriam os prenúncios da consumação dos séculos. O homem mais cético, no entanto, observa que esse discurso acompanha o cristianismo desde os seus primórdios — há mais de dois mil anos —, e percebe que, historicamente, a expectativa do “fim dos tempos” é também uma constante humana, um espelho de nossos medos, esperanças e limites.

Ao longo dos séculos, essa narrativa tem sido usada tanto como instrumento de fé quanto de poder. Em nome dela, muitos moldam o comportamento das pessoas, impondo regras e controles. Há os que dela se aproveitam, vendendo ilusões e “pedacinhos do céu”; mas há também os que, sinceramente, creem e encontram na promessa da volta de Cristo uma razão profunda para viver com retidão. Assim, há um lado sombrio — o da manipulação e da exploração da fé —, mas também um lado luminoso, que é o pedagógico: o temor de Deus pode ser, para muitos, o freio moral que impede a ruína do convívio humano.

Sem esse senso do divino, talvez parte da humanidade já tivesse se perdido. Como disse Santo Agostinho, “inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti” (Confissões, I,1). É essa inquietação — o desejo de eternidade e sentido — que nos leva a buscar Deus, ainda que através do medo do fim. O verdadeiro desafio é transformar o medo em amor, o temor em esperança. Que a fé que Jesus ensinou, mesmo que pequena como um grão de mostarda (cf. Mt 17,20), conduza a humanidade pelos caminhos da paz, da fidelidade e do amor verdadeiro. Estamos precisando, mais do que nunca, dessa fé que não se impõe, mas se testemunha.

A metáfora do “fim dos tempos como uma mulher grávida”, cheia de dores e contrações, atravessa as Escrituras e nos convida à reflexão profunda. O próprio Cristo, em Mateus 24,8, advertiu: “Mas tudo isso é o começo das dores .” Ele falava de guerras, fomes e terremotos, sinais não apenas físicos, mas espirituais — o sofrimento do mundo que geme por redenção.

O apóstolo Paulo retoma essa imagem em 1 Tessalonicenses 5,3 : “Quando as pessoas disserem : Estamos em paz e segurança ,então de repente a ruina cairá sobre elas, como em dores do parto para a  mulher grávida, e não conseguirão escapar.”É um alerta à falsa tranquilidade: a verdadeira paz só virá com a conversão do coração.

Em Romanos 8,22-23, Paulo amplia o sentido da metáfora: “Sabemos que a criação toda geme e sofre dores de parto até agora.” O universo inteiro participa dessa expectativa da redenção, como se tudo — estrelas, mares, florestas e homens — estivesse grávido de eternidade, aguardando a plenitude do Reino de Deus.

E, por fim, no simbólico Apocalipse 12,2,  “ Estava grávida e gritava,  entre as dore do parto, atormentada para dar à luz”. É a mulher que grita em dores de parto anuncia o nascimento de algo novo: a vitória da vida sobre a morte, da graça sobre o pecado.

Essas passagens mostram que as “dores de parto” não são apenas sinal de destruição, mas de gestação. O mundo, com suas crises e sofrimentos, pode estar gerando uma nova consciência espiritual, um novo modo de ser humano.

Que saibamos, então, ler os sinais do tempo não com medo, mas com esperança. O “fim” pode ser, na verdade, o início de algo mais pleno. Que nas dores do presente nasça um novo homem, mais justo, mais compassivo e mais unido a Deus.

“Eis que faço novas todas as coisas” (Ap 21,5).

Pedro Cláudio – 30 de outubro
Refletindo sobre o final do ano e as celebrações que se aproximam, na esperança de que, em meio às dores e às esperas, renasça em nós a fé que transforma o medo em amor e o fim em recomeço.

domingo, 26 de outubro de 2025

A Vida e Suas Surpresas: Reflexão Sobre Perdas e Caminhos

 

A Vida e Suas Surpresas: Reflexão Sobre Perdas e Caminhos

 


Por Pedro Claudio Rosa, de Iporá – Goiás

 

A vida reserva muitas surpresas — e é justamente nessa dinâmica incessante que encontramos a verdadeira densidade da existência. Tudo muda o tempo todo, e precisamos de um imenso esforço para não sucumbir nessa história, para não nos entregarmos ao desânimo. Viver exige coragem, sobretudo em meio às perdas.

 

Lembranças que permanecem

 

Lembro-me de anos marcados pela partida de pessoas queridas — Marlene Eva, Roberto Cassiano, Guinter Rodrigues e Waldiney Gomes — amigos que estiveram ali, sorrindo na confraternização da rádio em janeiro de 2020, e que depois partiram.

Essa memória — alegre e, ao mesmo tempo, gravada por um silêncio invisível — revela a complexidade da vida: a convivência com o efêmero, a presença que se transforma em lembrança, o lugar que se mantém guardado no coração.

 

O convite da vida: aprender com a dor

 

Viver sabendo que a morte física é certa, que perdas virão, e que não há “outro caminho” senão seguir, é um desafio constante. Mas é também um convite.

As perdas precisam nos ensinar. Temos que aprender e seguir, por caminhos tortuosos ou não. Cada pessoa traz dentro de si um suporte, uma estrutura — e essa estrutura pode e deve ser alimentada pelo significado, pela memória, pela fé e pela esperança.

 

Reconhecer a dor

 

DOEM AS PARTIDAS. DOEM OS LUGARES QUE FICAM VAZIOS, OS RITUAIS QUE JÁ NÃO TÊM A MESMA FORMA. A REALIDADE É QUE VOCÊ SOFRERÁ PARA SEMPRE.

Você não vai “superar” a perda de um ente querido; você aprenderá a conviver com ela. Vai se curar e se reconstruir em torno da perda que sofreu.

Reconhecer que a dor é parte da vida — e que ela não será apagada com rapidez — é essencial para não nos tornarmos “zumbis” da própria história.

 

Transformar a perda em força

 

Cada uma das pessoas que partem conviveu conosco de um jeito único. Elas deixaram memórias, gestos e sorrisos — e agora cabe a nós carregar esses legados internamente.

Como lembra um pensamento inspirador:

 

“Em cada final, um novo começo espera silenciosamente.”

(uncommonquotes.com)

 

Não se trata de esquecer, mas de transformar o que se foi em força para seguir adiante.

 

Fidelidade à vida

 

Outro ensinamento importante é não desistir de viver.

Devemos permanecer fiéis à vida — não nos entregar aos vícios, ao desânimo ou ao abandono.

Mesmo quando o chão treme, é preciso cultivar um sentido, escolher viver com propósito.

 

O poeta Henry Wadsworth Longfellow escreveu em A Psalm of Life:

 

“A vida é real! A vida é séria!

Aja, aja no presente vivo!

Vamos então levantar-nos e agir,

Com coração para qualquer destino.”

 

Que essa atitude seja a nossa bandeira: viver o presente, agir, amar, recordar, criar.

 

Confiar em algo maior

 

Sou católico praticante, diácono permanente, e creio que Deus é presença constante na vida dos que creem.

Mesmo quando o caminho é tortuoso, mesmo quando a perda parece esmagar-nos, confiar em um suporte — seja espiritual, seja comunitário — ajuda a sustentar a alma.

 

A imagem daquela confraternização — alegre, cheia de amizade e boas lembranças — é preciosa. O fato de ter sido a última celebração para alguns não a torna triste: a torna intensa, significativa.

Devemos guardar essas memórias com gratidão, celebrá-las com leveza e honrá-las vivendo de modo que o princípio da vida deles se reflita em nós — em amor, companheirismo e fé.

 

Seguir adiante

 

Devemos seguir, mesmo que o passo esteja pesado, mesmo que o horizonte pareça incerto.

A vida não para — e a nossa história continua. A dor não precisa ser eterna, nem em vão; ela pode se transformar em reverência ao que foi e em impulso ao que será.

 

Que cada perda não seja apenas um vazio, mas também um portal para exercer a gratidão, renovar o sentido e amar mais forte.

Que eu, você — e todos que perderam — encontremos no meio dessa estrada dinâmica algo que ainda pulsa: a fé de que há algo mais, o abraço invisível da memória, a promessa de novos dias, de novas cores.

 

E que, acima de tudo, preservemos o compromisso com a vida — não em autoabandono, não em rendição, mas em coragem de construir, em esperança de renascer.

 

Com fé e solidariedade, compartilho essa minha experiência de vida.

— Pedro Claudio Rosa

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

O caminho da paz inteligente

 

O caminho da paz inteligente


Há muito tempo estamos nos tornando estranhos uns aos outros. O que antes era implícito, agora se tornou explícito. A recente fala do presidente norte-americano, Donald Trump, ao defender o assassinato de suspeitos de tráfico de drogas, é um exemplo claro dessa mudança.
De fato, é compreensível a revolta contra o crime das drogas — ele destrói famílias, corrói comunidades inteiras e compromete o futuro de jovens. É urgente agir de forma firme contra quem lucra com o vício alheio. No entanto, anunciar a morte de suspeitos não é o caminho. Essa postura evidencia não apenas a fragilidade das ações preventivas, mas também a ausência de diálogo entre as nações e de uma verdadeira vontade de construir a paz.

Pouco se questiona essa fala, talvez porque venha de alguém que parece estar acima de todos os limites, como se fosse imune a qualquer julgamento. É inegável que Trump, assim como outros líderes mundiais, tem razão ao se opor a regimes ditatoriais e ao buscar soluções para conflitos como os da Faixa de Gaza e da Ucrânia. No entanto, o seu modus operandi sanguinário mostra que a paz não se conquista com mais violência.

A antiga lei do olho por olho, dente por dente (Êxodo 21:24) está sendo aplicada, mas ela nada tem a ver com o espírito cristão de perdão, misericórdia e reconciliação que Jesus ensinou. A história já demonstrou que a violência não se vence com violência, e sim com paz inteligente, diálogo e sabedoria.

Que sejamos, portanto, instrumentos dessa paz. Que Deus nos ilumine para vivermos com prudência e temor do Senhor — em casa, na família, no trabalho, na comunidade, nos clubes, em cada encontro com o próximo. Precisamos compreender que os grandes e famosos, ainda que influentes, nem sempre são bons exemplos a seguir.

Mesmo sem ocupar cargos de poder, podemos fazer a diferença onde estivermos. Basta não alimentar o ódio, não colocar mais lenha na fogueira. Como reza São Francisco de Assis:

“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz;
onde houver ódio, que eu leve o amor;
onde houver discórdia, que eu leve a união.”

Não é preciso ser Putin na Rússia, Netanyahu em Israel, Lula no Brasil ou Trump nos Estados Unidos. Basta ser você mesmo, guiado pela luz da fé e pela inteligência do bem.
Pense nisso.

Por Pedro Cláudio RosaIporá, Goiás.

 

domingo, 19 de outubro de 2025

 

Entre o Julgamento e a Compaixão: Caso em Nova Maringá desperta reflexão sobre fé e prudência nas redes sociais . Reflexão Cristã: Entre o julgamento e a compaixão


Por Pedro Claudio

Um episódio ocorrido em outubro, no município de Nova Maringá (MT), tem chamado a atenção não apenas pelo fato em si, mas pelos seus desdobramentos. Trata-se do caso envolvendo o padre Luciano Braga Simplício, de 39 anos, e uma jovem de 21 anos, registrado em vídeo no interior da casa paroquial, no dia 12 de outubro, um domingo. As imagens, que rapidamente viralizaram nas redes sociais, mostram a moça escondida embaixo da pia do banheiro, após a residência ser invadida por pessoas supostamente ligadas ao ex-noivo dela.

O vídeo gerou uma onda de comentários, críticas e piadas na internet. Como acontece com frequência, as redes sociais transformaram um episódio delicado em espetáculo e motivo de chacota. No entanto, o ponto central da discussão pública recaiu sobre a quebra do celibato, compromisso exigido pela Igreja Católica aos seus ministros ordenados. Muitos aproveitaram o fato para tentar fragilizar a imagem da instituição e de seus líderes religiosos.

Importa lembrar que, em meio à avalanche de julgamentos, poucos se preocuparam em ouvir a versão dos envolvidos. O padre nega qualquer envolvimento inadequado, e a jovem – também vítima de exposição ilegal – não teve sua voz amplamente divulgada. Já os invasores, que afirmam ter agido em defesa da honra de um parente, agora são investigados pela polícia por possíveis crimes cometidos durante a invasão e divulgação das imagens.

A Diocese reagiu de forma rápida e responsável, instaurando um procedimento interno para apurar o caso, o que permitirá que todos os lados sejam ouvidos antes de qualquer conclusão. Esse é o caminho correto – o da prudência e da justiça.

Contudo, o estrago social e moral já está feito. Famílias, comunidades e fiéis estão abalados. E é justamente neste ponto que se impõe uma reflexão cristã profunda: quantas vezes nos deixamos levar pela pressa em julgar, pelas manchetes, pelos comentários nas redes? Quantas vezes esquecemos que, antes de qualquer erro ou suspeita, há pessoas, seres humanos que merecem respeito, escuta e misericórdia?

Cristo nos ensinou: “Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). A lição é clara. Antes de condenar, é preciso olhar para dentro de nós, reconhecer nossas fragilidades e agir com amor, prudência e compaixão.

Que esse episódio sirva de alerta. A fé de muitos é frágil, e a exposição cruel de um escândalo pode abalar corações e afastar pessoas da Igreja. Cabe a cada cristão contribuir para restaurar a confiança, promover o perdão e evitar espalhar boatos e piadas que ferem e destroem.

O momento é de oração, discernimento e caridade. Que todos os envolvidos encontrem a verdade, a justiça e a paz — e que nós, como comunidade cristã, aprendamos a ser mais compassivos e menos juízes.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O valor da imprensa na era das redes

 

O valor da imprensa na era das redes


Por Pedro Cláudio – Iporá (GO) setembro de 2025

O desafio atual está justamente em compreender a diferença entre imprensa e mera divulgação, valorizando o jornalismo como atividade essencial à democracia e entendendo o papel das novas formas de comunicação no ambiente digital.

O que se vê hoje, porém, é uma confusão cada vez mais comum: gestores públicos tratando publicações em Facebook ou Instagram como se fossem jornalismo. É como confundir os nutrientes do feijão com o isopor moldado no mesmo formato. Ambos podem encher o estômago, mas só um alimenta de verdade.

Prefeitos, vereadores, governadores — e até presidentes — acreditam ser suficiente publicar suas versões dos fatos, mostrar feitos administrativos e divulgar realizações apenas em suas páginas pessoais ou institucionais. Fazem isso para os seus seguidores mais próximos, mas sem gerar efeito real de empatia com a população em geral. Informação unilateral não é notícia, é propaganda.

Quando os meios de comunicação são utilizados de forma responsável, seja no rádio, na televisão, no jornal impresso ou nos sites jornalísticos, há um ganho de credibilidade. O conteúdo ganha peso, passa pelo crivo da apuração e transmite mais confiança. Diferente do “oba-oba” das redes sociais, que muitas vezes soa como alarde vazio, sem efeito prático.

A modernidade chegou, mas precisa vir acompanhada de inteligência. A multiplicidade de plataformas deve ser usada para agregar, e não para reduzir a comunicação pública a um jogo de autopromoção. Publicar edital oferecendo dinheiro a internautas para divulgar feitos do poder executivo, por exemplo, parece mais uma infantilidade do que uma política séria de comunicação.

A imprensa, com seus jornalistas, continua a ser indispensável. É ela quem organiza os fatos, confronta versões, dá espaço à crítica e cumpre sua função democrática. As redes sociais são ferramentas importantes, mas não substituem o jornalismo. Confundir esses papéis é alimentar-se de isopor: pode até preencher, mas não sustenta.

O que é imprensa hoje?

Entre o jornalismo tradicional, os sites e os influenciadores

Durante muito tempo, falar em imprensa significava se referir a jornais impressos, emissoras de rádio e televisão. Esses veículos eram os principais canais de informação da sociedade e tinham como base o trabalho jornalístico, pautado pela apuração, checagem de fatos e compromisso ético com a verdade.

Com o avanço da internet, esse conceito se expandiu. Sites e portais de notícia passaram a desempenhar a mesma função que os jornais impressos, apenas em um novo formato. Portanto, ainda que digitais, esses canais são considerados imprensa porque exercem atividade jornalística de forma organizada.

A popularização das redes sociais trouxe uma nova camada de comunicação. Plataformas como Facebook, Instagram e TikTok se tornaram espaços de grande alcance, onde tanto veículos jornalísticos quanto pessoas comuns podem publicar conteúdo. No entanto, é importante destacar: as redes sociais são meios de difusão, não imprensa em si.

Nesse cenário, surgem os influenciadores digitais. Com milhares ou até milhões de seguidores, eles têm capacidade de mobilizar opiniões e dar visibilidade a temas. Porém, a atividade de influenciador não se confunde automaticamente com jornalismo. Influenciadores são comunicadores, criadores de conteúdo e formadores de opinião, mas só podem ser considerados parte da imprensa quando adotam práticas jornalísticas — como checar informações, ouvir diferentes lados e ter compromisso editorial.

Assim, a imprensa hoje é composta não apenas pelos meios tradicionais, mas também por sites e portais digitais que exercem jornalismo profissional. Já os influenciadores e comunicadores digitais representam um novo campo, relevante e poderoso, mas distinto em sua natureza.

 

A imprensa de ontem e o faz de conta de hoje

 

A imprensa de ontem e o faz de conta de hoje

Por Pedro Cláudio – Iporá (GO)

26 de setembro de 2025

Sou da época do jornalismo factual. Daquele tempo em que notícia só era publicada depois de checada, confirmada por fontes confiáveis e, ainda assim, nos deixava sob risco de responder judicialmente por qualquer deslize. Erros grotescos ou inocentes tinham peso, e a responsabilidade era enorme. O jornalismo era tratado com seriedade, e tudo era levado a sério.

Hoje a realidade é bem diferente. É verdade que existem reguladores, mas nem de longe se compara com os anos 80, 90 e início dos anos 2000. O que vemos atualmente é a multiplicação de veículos improvisados: basta um celular para montar uma TV web, ficar à espreita de sessões da Câmara, de um jogo de futebol ou de um acidente nas ruas, e pronto, já se considera imprensa.

Da mesma forma, quem contrata um serviço de streaming se intitula dono de uma rádio. Quem abre um site, escreve algumas linhas, tira fotos e publica na internet já é chamado de imprensa — muitas vezes, até elogiado em eventos públicos como se exercesse jornalismo de fato. Mas será mesmo?

O que percebo é muito mais marketing e propaganda do que jornalismo. Há um simulacro de imprensa que cresce, sustentado por aparências e pela facilidade tecnológica. A seriedade cedeu espaço à autopromoção.

Até quando isso vai durar? Não sei. A formação cultural e educacional do nosso povo não permite prever com precisão. O que parece certo é que apenas os efeitos práticos — a falta de credibilidade, a desconfiança e o desgaste social — poderão frear essa onda de faz de conta que insiste em se vestir de jornalismo na sociedade atual.

domingo, 21 de setembro de 2025

“A fé que liberta de verdade”

 





Reflexão – Domingo, 21 de Setembro de 2025

“A fé que liberta de verdade”

Domingo. Dia de silêncio interior, de encontro com Deus e também de perguntas. Sempre me pego pensando: por que creio? Por que me dedico à oração? O que, no fundo, eu busco?

A fé não deve ser cega, tampouco automática. O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que a verdadeira fé deve ser acompanhada de fortaleza, sabedoria e ciência. Por isso, é natural — e até necessário — refletirmos sobre os porquês da nossa existência e da nossa caminhada espiritual. Ter fé não exclui pensar. Pelo contrário, a fé, quando verdadeira, amplia nosso entendimento.

Não falo de dúvidas que paralisam, mas de questionamentos que conduzem ao crescimento. Deus pode se revelar de forma sutil a uns e de maneira constante e palpável a outros. E cada pessoa responde a essa presença divina com um estilo próprio: há quem dedique todo o tempo, sacrifique conforto, família e recursos pessoais em nome de um ideal de salvação. São expressões legítimas de uma fé vivida com intensidade.

Mas, às vezes, me vem à mente aquela frase famosa: A religião é o ópio do povo, escrita por Karl Marx. Seria mesmo? Quando vemos manipulações e massas conduzidas ao erro em nome da fé, parece que sim. Mas, ao mesmo tempo, a religião também ordena comportamentos, inspira o bem, e motiva grandes transformações pessoais e sociais. Tudo depende do que fazemos com aquilo que recebemos. Por isso, é preciso discernimento. E cautela.

Na missa do 25º Domingo do Tempo Comum, o Papa Leão XIII disse: “Servir a Deus nos liberta da escravidão da riqueza.” Um alerta importante. O dinheiro, quando mal usado, pode se tornar uma arma — ele oprime, monopoliza, humilha. Padre Rafael Vieira, redentorista, reforça esse pensamento ao afirmar que o verdadeiro ensinamento do Evangelho é o uso correto dos bens: o dinheiro deve servir ao bem das pessoas, e não criar castas privilegiadas ou aprofundar desigualdades.

Assim, acredito com convicção: a fé liberta de verdade.
Liberta do egoísmo, da vaidade, da escravidão ao poder e ao consumo. Liberta da pressa, do vazio, da desesperança. E, acima de tudo, nos reconcilia com o outro e com Deus.

Que este domingo seja um tempo de silêncio ativo: que pensemos, sim, mas que também ouçamos. Que questionemos, mas que saibamos acolher as respostas que Deus nos dá — ainda que em sussurros.