sábado, 13 de dezembro de 2025

Eu ainda estou aqui: Pedro Claudio e uma vida dedicada ao rádio

 

Pedro Claudio e sua história






Ao final de 2025, olho para trás e me permito refletir.
Antes de tudo, constato algo simples e profundo: eu ainda estou aqui.

Ainda estou aqui

Ao final de 2025, olho para trás e faço um exercício simples — e profundo. Constato que ainda estou aqui. Pode parecer pouco, mas não é. Em tempos de tanta pressa, tanto esquecimento e tanta substituição, permanecer é quase um ato de resistência.

Cheguei à Rádio Rio Claro de Iporá em abril de 1987. O rádio ainda era feito de botões, discos, cartucheiras e vozes. Não havia internet, nem computador, nem essa pressa elétrica que hoje nos atropela. A notícia chegava pelo telefone, pelo rádio de ondas curtas, pelas fitas gravadas. O mundo era ouvido antes de ser visto.

Iporá também era outra. A cidade vivia seus próprios ciclos políticos, suas instabilidades e reinvenções. Prefeitos iam e vinham, mandatos eram interrompidos, intervenções aconteciam. O poder mudava de mãos, mas o rádio permanecia. Sempre ali, testemunha silenciosa — e falante — do cotidiano.

Enquanto isso, o mundo dava voltas rápidas. A União Soviética ainda existia e Mikhail Gorbachev anunciava o fim de uma era. O Brasil se assustava com o Césio-137 em Goiânia, respirava os últimos ares da ditadura, recuperava a liberdade de imprensa, elegia Tancredo Neves, chorava sua morte e aprendia a conviver com a democracia sob José Sarney. Em 1988, a Constituição nascia — e eu já estava no rádio, contando tudo isso do jeito que dava.

Entrei na emissora por meio de um concurso anunciado no ar. Pediam experiência, estudo, segurança. Eu não tinha tudo isso, mas tinha vontade. Disputei a vaga com mais de cem candidatos. Passei. Fiquei. Trabalhei meses sem carteira assinada, até que em maio de 1988, aos 23 anos, me tornei oficialmente parte da casa. E nunca mais saí.

Vi o rádio mudar de roupa muitas vezes. Do vinil ao CD, do MiniDisc ao digital. Vi o improviso virar técnica, a curiosidade virar método, a intuição virar responsabilidade. Fiz de tudo um pouco: locução, reportagem, edição, pauta, operação de áudio. Arrisquei até narrar futebol — erro prontamente corrigido por um conselho sábio de um tio que hoje mora na saudade. O rádio também ensina a reconhecer limites.

Com o microfone na mão, acompanhei histórias duras e histórias humanas. Atentados, crimes, tragédias, disputas políticas, quedas e ascensões. Estive em Israelândia, Amorinópolis, Arenópolis, Piranhas, Jaupaci. Vi prefeitos surgirem, caírem, se reinventarem. Vi cidades crescerem, sofrerem, resistirem. Vi o Oeste goiano escrever sua própria história — e tentei narrá-la com o cuidado de quem sabe que palavras ficam.

Nesse caminho, vivi a vida. Namorei, casei, tive filhos. Fiquei viúvo — uma dor que não se explica, apenas se carrega. Casei novamente. Duas mulheres marcaram profundamente minha trajetória. Com elas, aprendi que a vida não pede permissão para mudar de rumo.

Agora, com a aposentadoria no horizonte, me pergunto quantas histórias contei e quantas precisei guardar. Quantas vezes me calei por ética. Quantas vezes me questionei se aquela notícia ajudaria alguém. Não sei quantas vezes acertei ou errei. Sei apenas que continuei. Atualizado, atento, presente.

Talvez um dia seja hora de passar o bastão. Mas ainda não. Ainda há tempo. Tempo de ouvir, de contar, de conectar o local ao mundo. De viver na aldeia sem perder o global. De entender que o que acontece aqui — na rádio, na cidade, na vida — ecoa mais longe do que se imagina.

Por isso sigo.
Com o rádio ligado.
Com a memória viva.
E com a certeza tranquila de quem pode dizer, sem medo: ainda estou aqui.



Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns pra você Pedro Cláudio, uma vida dedicada aos acontecimentos da região centro oeste. Levando muitas notícias com responsabilidade. Dedicando toda vida na arte do entredimento, me lembro bem quando começou na antiga rádio Rio Claro. Parabéns pelos seus 39 anos, quase quatro décadas! Já se aposentou ou quase, meu amigo kkk