

Crônica | A prisão
chamada Terra
Por Pedro Claudio –
Jornalista, Radialista, estudante de Teologia e História
Imagine duas pessoas
presas em um mesmo espaço. Um local fechado, sem portas, sem janelas. A única
abertura é pequena — por onde chega, todos os dias, uma porção exata de
alimento, suficiente para manter os dois vivos. Nem mais, nem menos. Uma medida
milimetricamente calculada.
Mas há uma regra não
escrita nessa prisão: se um comer mais do que lhe cabe, o outro morre. Simples
assim. Não há reservas, não há estoque, não há misericórdia do tempo. É o
equilíbrio ou o fim. Um excesso de um lado é a escassez do outro.
Agora imagine que essa
prisão é o nosso planeta. A Terra. Esse lugar imenso, onde nos movemos achando
que somos livres, mas estamos todos presos entre o nascer e o morrer. O tempo é
o carcereiro, e a natureza, a única fonte de sustento.
Olhe ao seu redor. Veja o
que você consome. Preste atenção na gordura acumulada, nas sacolas que não
param de chegar, no armário cheio de comida, na conta bancária crescendo como
se isso fosse garantia de alguma eternidade. Está sobrando, não está?
Enquanto isso, nas ruas,
nas periferias, em outros cantos da cidade ou do mundo, há pessoas que sequer
recebem a pequena porção diária. Gente que morre de fome — literalmente —
porque alguém mais decidiu que precisava de mais. Só mais um pouco. Só mais um
luxo. Só mais um exagero.
Somos iguais, feitos da
mesma matéria, filhos do mesmo pó e com o mesmo destino: voltar à terra. Mas
mesmo nessa igualdade biológica, construímos desigualdades brutais. Dividimos o
mundo em castas invisíveis, em muros reais e simbólicos. Criamos a falsa ilusão
de que podemos viver bem enquanto o outro vive mal. E aplaudimos isso.
Nos orgulhamos do que
chamamos de conquistas: "fruto do meu trabalho", dizemos. Mas
esquecemos que muita riqueza nasce do suor dos outros. E, pior: muitos acumulam
não para viver, mas para que sobre. E, quando alguém ousa questionar isso, a
resposta vem com a ira de quem protege um território — “isso é meu!”.
Fazemos do acúmulo um
escudo. Do egoísmo, uma virtude. A cesta básica, o dízimo, a caridade
esporádica nos tranquilizam a consciência — mas não mudam o sistema que permite
que uns tenham muito enquanto outros não têm nada.
Vivemos, no fundo, como
se essa prisão chamada Terra fosse um espaço de disputa e não de convivência.
Como se a sobrevivência de um fosse indiferente à morte do outro. Mas o
equilíbrio — lembre-se — é o que mantém os dois vivos. Quando um cai, a
estrutura toda balança.
Talvez ainda haja tempo
para mudar. Talvez ainda possamos reaprender a dividir. A viver com o
suficiente. A entender que o que nos sobra pode ser o que falta a alguém. E
que, no final das contas, ninguém sai vivo da prisão — mas é possível sair com
dignidade.
Porque, afinal,
humanidade não se mede pelo que se tem. Mas pelo quanto se reparte.
Foto UEG Iporá- Goiás |
Quiçá aconteça um
milagre: entre cruzes e esperanças, um novo ano se anuncia
Por Pedro Cláudio – Jornalista, radialista, estudante de Teologia e História
Final de ano é tempo de
recomeços. É Natal, é virada de calendário, é esperança depositada num novo
ciclo que, talvez, seja mais justo que o anterior. Para muitos, o desejo é de
fartura, paz e prosperidade para si e para os seus. Para outros, é simplesmente
sobreviver. Cada qual carrega sua cruz, e nem todas pesam o mesmo, embora todas
exijam resistência.
No entanto, ao chegar o
fim de 2017, a sensação que paira é de que a tempestade ainda não passou — ou,
quem sabe, apenas começou. O cenário político foi marcado por escândalos
sucessivos, corrupção disseminada, reformas aprovadas a toque de caixa que penalizam
justamente os que mais precisam do Estado. A Previdência, reconfigurada para
excluir os frágeis; a nova legislação trabalhista, que fragiliza os direitos
conquistados com décadas de luta. Até o salário mínimo, em sua essência
protetiva, foi reduzido a uma cifra simbólica, insuficiente para garantir
dignidade.
No campo religioso, o que
se vê também causa espanto. A fé, que deveria consolar, ensinar e transformar,
muitas vezes se transforma em palco de vaidades e exploração. Líderes que
pregam uma coisa, mas vivem de outra forma. “Faça o que eu digo, mas não faça o
que eu faço.” E assim, muitos pastores se ocultam sob mantos de santidade para
manter seus impérios — não espirituais, mas financeiros.
Diante disso, a pergunta
se impõe: quem nos salvará? Um político que se dizia honesto, mas se corrompeu
no poder? Um empresário bem-sucedido que só deseja blindar os seus? Líderes
religiosos que confundem fé com comércio? Em meio à desesperança, reconheçamos:
há, sim, quem ainda luta com ética, fé e dignidade. Mas, como se diz, uma
andorinha só não faz verão.
2018 chega cercado de
incertezas, e talvez só uma revolução profunda — não necessariamente armada,
mas moral, ética e espiritual — possa nos tirar do lamaçal. Que revolução seria
essa? Francesa, russa, cubana? Ou uma silenciosa revolução de consciência, de
escolhas individuais e coletivas que alterem o curso da história?
É preciso sabedoria para
atravessar o mar de lama sem se sujar, como quem caminha sobre águas
turbulentas com os pés firmes na esperança e os olhos voltados ao bem comum. É
preciso carregar a cruz — não como fardo que nos abate, mas como resistência ao
sistema que exclui, oprime e desumaniza.
Como nos ensina o
Evangelho de Mateus (19,16-26), a salvação não está no acúmulo, mas no
desprendimento. Não está no templo luxuoso, mas na prática da justiça. Não está
na aparência da piedade, mas no amor ao próximo. Um jovem rico se entristeceu
ao ouvir que para seguir Jesus teria que repartir seus bens com os pobres. A
cruz do desapego foi demais para ele.
Talvez essa também seja a
cruz da humanidade hoje: a dificuldade de abrir mão dos privilégios em favor de
um bem maior. Como disse Jesus, “Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo
é possível.”
Se ninguém quiser ouvir,
que ao menos se leia. E se ninguém ler, que se grite. Porque, mesmo diante do
silêncio dos poderosos e da surdez dos templos, ainda há os que insistem na
esperança. E quiçá aconteça um milagre.
Guinter Rodrigues locutor pioneiro em Caiaponia |
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imagem divulgação CFM |
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Gianricardo- chefe do cartório 53ª zona |
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Professor Flávio Sofiati - foto divulgação UEG |
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Prof. Rezende - foto divulgação UEG |
Cel. Alves. comandante da PM em Goiás |
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Capitão Messias |
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Córrego tamanduá em 12/11/2017 |
Chuvas trazem alívio à região Oeste de Goiás, mas especialistas
alertam para crise hídrica estrutural
Rios voltam a
correr e produção rural é retomada, mas degradação ambiental ainda ameaça
abastecimento de cidades como Iporá, Arenópolis e São Luís de Montes Belos
As chuvas que caem com intensidade neste mês na
região Oeste de Goiás trouxeram alívio à população urbana e ao produtor rural.
Depois de um período de estiagem prolongada, os níveis de rios e córregos
começaram a se recuperar, afastando temporariamente o risco iminente de
desabastecimento nas cidades.
A melhora no regime de chuvas foi comemorada por
agricultores, que voltam a preparar a terra para o plantio, e por moradores de
cidades que, como Iporá, enfrentaram nos últimos anos graves problemas de falta
d’água. No entanto, especialistas e lideranças locais fazem um alerta: a crise
hídrica é consequência direta da degradação ambiental e requer ações imediatas
e duradouras.
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Mestre Waldir Specian a UEG debate essa situação. |
“O problema não é só a chuva, é o que estamos fazendo com a água que temos”,
afirma o professor Valdir Specian, mestre em Ciências da Engenharia Ambiental e
docente da Universidade Estadual de Goiás (UEG) em Iporá. Para ele, o alívio
momentâneo não deve mascarar a urgência de preservar nascentes, matas ciliares
e mananciais. “A água é um direito de todos, mas também um dever de todos.
Precisamos limitar o uso doméstico, recuperar áreas degradadas e proteger o que
ainda resta”, reforça.
Valdir lembra que a ocupação irregular do
solo, a destruição de nascentes pelo pisoteio de gado, a ausência de curvas de
nível e a falta de respeito à reserva legal prevista na legislação ambiental
são práticas que ameaçam o ciclo da água. “Estamos punindo a nós mesmos. A
tendência, se nada for feito, é faltar água para o consumo humano, para os
animais e para a produção de alimentos”, alerta.
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Adailton Leite - Produtor rural deve preservar. |
Histórico de crise
A realidade já deu sinais drásticos. Em 2017,
cidades como Arenópolis, São Luís de Montes Belos, Fazenda Nova e a própria
Iporá registraram desabastecimento. Em Iporá, toda a vazão do ribeirão Santo
Antônio era desviada para abastecer a cidade, gerando tensão e protestos.
Na capital, Goiânia, o cenário também
preocupa. O lago de Serra da Mesa, maior reservatório de água da América
Latina, chegou a níveis críticos recentemente. O Rio Vermelho secou em algumas
regiões, e os rios Anicuns e Meia Ponte enfrentam sérios problemas de vazão.
“Estamos diante de uma crise anunciada. Só haverá resultado se começarmos agora
a recuperar nascentes e matas ciliares. Isso leva tempo”, reforça o professor
Valdir.
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Advogado João Francisco sugere trabalho preventivo. |
Iniciativas locais
Diante do cenário, o Sindicato Rural de Iporá,
Diorama e Israelândia iniciou em 2016 um programa de conscientização junto aos
produtores. Segundo o presidente da entidade, o médico Adailton Leite, não se
trata de culpabilizar o agricultor, mas de estimular ações corretivas. “O
produtor rural não é o vilão, mas tem o dever de corrigir erros e recuperar
áreas degradadas. É preciso unir forças”, afirmou.
Outro defensor da causa é o advogado João
Antônio Francisco, que investe em um projeto de canalização do córrego
Tamanduá, em Iporá. Para ele, o papel da SANEAGO (empresa de saneamento) é
fundamental. “A empresa precisa assumir sua responsabilidade, investir em
infraestrutura, criar reservas de água e intensificar campanhas educativas”,
argumenta.
Sobre a perfuração de poços artesianos, o
advogado faz um alerta: “Quem fura um poço resolve o seu problema imediato, mas
esquece o coletivo. Precisamos pensar em soluções comunitárias e sustentáveis”.
Apesar
da trégua momentânea trazida pelas chuvas, o consenso entre especialistas e
lideranças é claro: ou o Estado e a sociedade assumem a responsabilidade
ambiental agora, ou a falta d’água voltará com ainda mais força — e
consequências.
Num país onde a corrupção corre solta, onde a indignação da maioria do povo não é capaz de promover a recuperação do dano causado aos cofres públicos, onde a descoberta do crime não se transforma em punição, mas em benesses — como prisão domiciliar em mansões ou privilégios em prisões, com conforto de boa alimentação, entretenimento, banho de sol e coleguismo com os outros encarcerados —, não se pode levar nada a sério.
Um país onde o trabalhador paga o pato pelos crimes do colarinho branco, com leis severas criadas para beneficiar os ricos; um país onde se paga pela aposentadoria e talvez nunca se tenha direito a ela; um país onde os pobres são tratados com desdém nas filas de hospitais — aqui, não existe seriedade, nem esperança!
Aqui, igrejas, em nome de Deus, exploram o povo, constroem grandes templos, garantem conforto a quem deveria apenas servir e, em nome da liberdade religiosa, permite-se enganar o próximo, pois nunca haverá punição.
Aqui, na terra do faz de conta, a transparência é turva, a torpeza é garantia de futuro, o grito não ecoa, a fé engana e a vida vale apenas a bala da arma ou a sujeira da faca.
Revolução... Pra quê? Revoltar-se... pra quê? Recorrer a quem?
Aqui, os salvadores da pátria são algozes, os heróis são vilões, os santos são demonizados, e os sonhos, pesadelos!
Despertar-se, jamais! Acordar?... Não existe esperança na terra de ninguém. Aqui, a vida está sempre por um vintém. Aqui é terra de ninguém.
Pedro Claudio Rosa
Um ninguém na multidão
Iporá, Goiás, 12 de novembro de 2017
Se quiser, também posso sugerir uma versão ainda mais refinada para publicação formal ou literária. Gostaria?