O uso do título “doutor” e os limites entre
tradição e rigor profissional
Por Pedro Claudio
Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais comum observar profissionais de diferentes áreas — especialmente da saúde, do direito e da estética — apresentarem-se publicamente como “doutor” ou “doutora”, seja em redes sociais, videochamadas ou materiais institucionais. Embora o fenômeno pareça banal, ele merece reflexão, pois envolve não apenas tradição e costume, mas também rigor técnico e ética profissional.
É
inegável que médicos, odontólogos, advogados e outros profissionais com
formação superior exercem funções de grande relevância social. São
profissionais habilitados, legalmente autorizados a atuar e, muitas vezes,
altamente qualificados em suas áreas. No entanto, é preciso distinguir
reconhecimento social de titulação acadêmica. Na maioria dos casos, essas
pessoas não possuem doutorado, título acadêmico obtido após a conclusão de um
curso específico, com defesa de tese reconhecida pelo Ministério da Educação.
Ser
chamado de doutor pela população, por clientes ou por pessoas do convívio
social é algo natural e, muitas vezes, decorre de respeito, admiração ou
tradição cultural. Outra situação, bem diferente, é a autodeclaração.
Apresentar-se como doutor sem possuir o título acadêmico não parece sensato e
pode transmitir uma ideia equivocada sobre a própria formação. Curiosamente,
mesmo entre aqueles que possuem doutorado, é comum uma postura mais discreta,
com a apresentação simples do nome, da profissão e da especialidade.
No caso
da advocacia, há um elemento histórico relevante. O tratamento de “doutor”
atribuído a advogados e advogadas remonta ao período do Império e consolidou-se
como um costume jurídico no Brasil, ainda que não corresponda, necessariamente,
a um doutorado acadêmico. Trata-se de uma exceção baseada na tradição, e não na
regra geral da titulação universitária. Para as demais profissões, não há
previsão legal semelhante que justifique o uso formal do título.
A
banalização do termo “doutor” pode, inclusive, gerar desconfiança. Quando
alguém se autointitula doutor sem possuir o título correspondente, cria-se a
impressão de tentativa de afirmação artificial de autoridade, o que não
contribui para a credibilidade profissional. Competência, ética e conhecimento
se demonstram na prática, e não no uso indevido de títulos.
Por
respeito, consideração ou admiração, muitas pessoas continuam a chamar
determinados profissionais de doutor — especialmente médicos, odontólogos que, em muitos casos, são efetivamente doutores. Esse tratamento, quando parte
do outro, é legítimo e compreensível. O problema reside na autoproclamação.
Em tempos
de comunicação instantânea e exposição constante, vale a reflexão:
apresentar-se de forma honesta, clara e coerente com a própria formação é sinal
de maturidade profissional. Dizer “sou médica”, “sou odontólogo”, “sou
advogado” ou “sou professor” não diminui ninguém. Pelo contrário, reforça a
credibilidade e o respeito que toda profissão merece.

Um comentário:
Exatamente 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
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