sábado, 3 de janeiro de 2026

O uso do título “doutor” e os limites entre tradição e rigor profissional

 

O uso do título “doutor” e os limites entre tradição e rigor profissional

Por Pedro Claudio


Nas últimas décadas, tornou-se cada vez mais comum observar profissionais de diferentes áreas — especialmente da saúde, do direito e da estética — apresentarem-se publicamente como “doutor” ou “doutora”, seja em redes sociais, videochamadas ou materiais institucionais. Embora o fenômeno pareça banal, ele merece reflexão, pois envolve não apenas tradição e costume, mas também rigor técnico e ética profissional.

É inegável que médicos, odontólogos, advogados e outros profissionais com formação superior exercem funções de grande relevância social. São profissionais habilitados, legalmente autorizados a atuar e, muitas vezes, altamente qualificados em suas áreas. No entanto, é preciso distinguir reconhecimento social de titulação acadêmica. Na maioria dos casos, essas pessoas não possuem doutorado, título acadêmico obtido após a conclusão de um curso específico, com defesa de tese reconhecida pelo Ministério da Educação.

Ser chamado de doutor pela população, por clientes ou por pessoas do convívio social é algo natural e, muitas vezes, decorre de respeito, admiração ou tradição cultural. Outra situação, bem diferente, é a autodeclaração. Apresentar-se como doutor sem possuir o título acadêmico não parece sensato e pode transmitir uma ideia equivocada sobre a própria formação. Curiosamente, mesmo entre aqueles que possuem doutorado, é comum uma postura mais discreta, com a apresentação simples do nome, da profissão e da especialidade.

No caso da advocacia, há um elemento histórico relevante. O tratamento de “doutor” atribuído a advogados e advogadas remonta ao período do Império e consolidou-se como um costume jurídico no Brasil, ainda que não corresponda, necessariamente, a um doutorado acadêmico. Trata-se de uma exceção baseada na tradição, e não na regra geral da titulação universitária. Para as demais profissões, não há previsão legal semelhante que justifique o uso formal do título.

A banalização do termo “doutor” pode, inclusive, gerar desconfiança. Quando alguém se autointitula doutor sem possuir o título correspondente, cria-se a impressão de tentativa de afirmação artificial de autoridade, o que não contribui para a credibilidade profissional. Competência, ética e conhecimento se demonstram na prática, e não no uso indevido de títulos.

Por respeito, consideração ou admiração, muitas pessoas continuam a chamar determinados profissionais de doutor — especialmente médicos, odontólogos que, em muitos casos, são efetivamente doutores. Esse tratamento, quando parte do outro, é legítimo e compreensível. O problema reside na autoproclamação.

Em tempos de comunicação instantânea e exposição constante, vale a reflexão: apresentar-se de forma honesta, clara e coerente com a própria formação é sinal de maturidade profissional. Dizer “sou médica”, “sou odontólogo”, “sou advogado” ou “sou professor” não diminui ninguém. Pelo contrário, reforça a credibilidade e o respeito que toda profissão merece.

 Pedro Claudio, reflexão feita após ver nas redes sociais muita gente se chamando de doutor ou doutora.

Um comentário:

Anônimo disse...

Exatamente 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼