sexta-feira, 29 de maio de 2026

ORAÇÃO DE FÉ DIACONAL

 



Ainda estou aqui



Solidão eclesiástica não é solidão de Deus.
Não é o fim.
Estou longe do púlpito, sem vestes, mas não sem Deus, que se impregnou em mim.

Apesar de mim, das consequências de minhas ações, de meu afastamento por minha culpa, minha tão grande culpa, sinto a presença de Deus o tempo todo. Porque “para onde irei longe do teu espírito? Para onde fugirei de tua presença?” (Sl 139,7 – Bíblia CNBB).

Estou sem o privilégio da Eucaristia. Estou em sacrifício, mas ainda me considero em comunhão, porque o próprio Cristo afirmou: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4).
Não há apontamento de culpados. Não há abandono. Meu coração pulsa. Meus olhos veem. Meus ouvidos escutam a Palavra. Todos os meus sentidos apontam Deus falando ao meu ouvido.

Aprendi com Santo Agostinho que Deus é mais íntimo a mim do que eu mesmo: “Tu estavas dentro de mim e eu te procurava fora” (Confissões). Por isso, ainda que afastado exteriormente de funções e ministérios, não consigo me perceber separado da graça que um dia me alcançou.

Quando no púlpito eu entoava o canto de animação e compromisso — “Eu confio em Nosso Senhor com fé, esperança e amor...” — e a comunidade completava em unidade de espírito, esse cantar permanecia gravado em mim. A memória da fé nunca morre.

Ainda escuto a fiel Abadiinha entremeando-se na oração eucarística e dizendo: “Eu acredito Senhor, mas aumentai a minha fé” (cf. Mc 9,24).
Ainda ouço o chamado da Sebastiana Rosa convidando-me para visitar doentes e idosos, levando a Eucaristia e a oração aos que sofriam.
Ainda ouço o então Padre José Roberto insistindo para que eu assumisse a missão diaconal.
Ainda sinto em minha cabeça o toque do Bispo Dom Carmelo impondo as mãos e transmitindo o Espírito que vem dos apóstolos, conforme a sucessão apostólica preservada pela Santa Igreja.
Ainda sinto e vivo minha prostração diante do altar, colocando minha vida inteira a serviço do Reino.

E o que é mais forte em mim, o que me garante a vida em Deus, é o sinal visível e sensível da Divindade: os sacramentos.

O Catecismo da Igreja Católica ensina que alguns sacramentos imprimem na alma um “caráter espiritual indelével” (CIC 1121), uma marca que jamais se apaga. O Código de Direito Canônico reafirma: “Os sacramentos do batismo, confirmação e ordem imprimem caráter e não podem ser repetidos” (Cânon 845 §1).

Carrego em mim o sinal indelével recebido no Batismo pela unção do óleo santo.
Depois confirmado na Crisma.
Alimentado pela Eucaristia, que uma vez feita carne em mim, continua sendo presença mesmo quando dela estou privado.
O sacramento do Matrimônio, embora ferido pela insensatez da morte, permanece como história santa inscrita em minha existência. “O amor jamais passará” (1Cor 13,8).

E por fim, a Ordem recebida no segundo grau do Sacramento: diácono permanente. Não como honra humana, mas como serviço. Não como poder, mas como entrega. A Igreja ensina que a ordenação configura o homem a Cristo Servo. E aquilo que Deus marcou, o tempo não apaga.

A Doutrina Social da Igreja ensina que a dignidade humana não desaparece com a queda, porque ela nasce da filiação divina. Continuo sendo filho de Deus. Pecador, sim. Frágil, sim. Necessitado de misericórdia, profundamente. Mas ainda filho.

Sei que há muitos questionamentos. Normais.
Muitos apontamentos. Normais.
Muitos julgamentos. Normais. Afinal, somos humanos.

Mas o único julgamento definitivo que reconheço é o da misericórdia de Deus. Porque “a misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13).

Não caminho apoiado em méritos. Caminho sustentado pela esperança.
São Paulo escreveu: “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35).
Nem a dor.
Nem a solidão.
Nem os erros.
Nem a perda.
Nem o silêncio.
Nem o afastamento.

Por essas e outras, nunca me ausentarei da fé.
Porque antes de eu procurar Deus, Ele já havia me encontrado.

E enquanto meu coração pulsar, enquanto minha consciência ainda dobrar os joelhos diante do Cristo Crucificado e Ressuscitado, permanecerei vivo na fé.

Pedro Claudio
Viúvo.
Diácono Permanente.
Jornalista.
Historiador.
Sonhador.
Persistente.