
Por Pedro Claudio Rosa –
Licenciado em História, Jornalista, Radialista e Diácono Permanente na Igreja
Católica Apostólica Romana
Vivemos tempos difíceis
em todo o Brasil. Não bastasse a instabilidade política, a polarização
ideológica, as reformas controversas — trabalhista, previdenciária —, e os
escândalos que abalaram as instituições, como a Lava Jato e a Vaza Jato, o país
ainda enfrenta um cenário alarmante de devastação ambiental. É fogo por todos
os lados. Os meses de julho, agosto e setembro de 2019, no pleno século XXI,
registraram uma onda de incêndios que consumiram grandes áreas do Cerrado, da
Mata Atlântica e da Amazônia. A fauna e a flora sofrem; os rios secam. O país
arde em chamas — literal e simbolicamente.
Em meio ao caos, até a
rádio, meio de comunicação considerado por muitos obsoleto, transmite o clamor
desesperado de líderes indígenas pela proteção dos Caiapós e de outras
comunidades ameaçadas. A situação remete àqueles tempos antigos em que, na
ausência de explicações científicas, buscava-se sentido nos desígnios divinos.
Se estivéssemos na Idade Média, talvez tudo isso fosse visto como um castigo de
Deus pelos pecados da humanidade.
Mas hoje, os estudiosos
apontam causas bem mais concretas: o tempo seco, a ganância desmedida, o avanço
descontrolado do agronegócio e o uso político do fogo, inclusive como
instrumento de pressão e desestabilização. Fato é que o ser humano — esse ser
racional — parece ter abdicado da razão. Vivemos um tempo em que a ignorância
veste capa de convicção, e o individualismo se sobrepõe ao bem comum.
Recordo com saudade dos
tempos da minha infância, nas décadas de 70 e 80, quando a fé popular era forte
nesta região. Via minha mãe, Luzia Joaquina Rosa, rezar ao pé do cruzeiro, com
flores e água, pedindo chuva. E a chuva vinha. Hoje, parece que perdemos até a
fé. Acumulamos diplomas, debatemos teologia, discutimos política, mas
esquecemos de amar, de cuidar, de viver com compaixão.
A polarização nos
fragmenta. Ser de direita ou de esquerda virou rótulo de guerra. Uns defendem o
crescimento econômico e a propriedade privada, outros os direitos humanos e a
igualdade social. Mas ninguém parece disposto a enxergar que estamos todos no mesmo
barco — e que ele está fazendo água. Em vez de unirmos esforços para salvar o
que resta, preferimos discutir quem tem razão, enquanto afundamos.
Falta-nos inteligência
emocional e espiritual para compreender a gravidade da situação. Falta-nos
humildade para reconhecer erros e coragem para mudar. Falta-nos fé — não apenas
religiosa, mas fé no ser humano, no coletivo, na esperança.
Talvez seja hora de rezar
mais. A oração pode não mudar o clima de imediato, mas pode mudar corações. E
corações transformados são capazes de atitudes novas. Oremos, sim — mas também
plantemos, cuidemos, eduquemos, escutemos.
Porque, do jeito que
vamos, só nos restará o vazio de uma terra arrasada e o eco de nossas próprias
escolhas. E que Deus tenha piedade de nós.
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