Igreja, Teologia da Libertação e Sinodalidade: entre a memória, a crise e a esperança
Por Pedro Claudio
A história da Igreja Católica é marcada por tensões permanentes entre tradição e mudança, conservação e reforma, espiritualidade e compromisso social. Ao longo dos séculos, essa instituição secular foi chamada a responder aos desafios impostos pelas transformações culturais, políticas, econômicas e sociais, construindo, nem sempre sem conflitos, caminhos de fidelidade ao Evangelho em contextos históricos diversos.
Na América Latina, especialmente a partir da segunda metade do século XX, essa tensão ganhou novos contornos com o surgimento da Teologia da Libertação, expressão teológica profundamente enraizada na realidade dos pobres e excluídos. Inspirada pelo Concílio Vaticano II (1962–1965) e pelas Conferências Episcopais Latino-Americanas de Medellín (1968) e Puebla (1979), essa corrente teológica buscou responder ao clamor das maiorias empobrecidas, propondo uma leitura da fé cristã a partir da práxis histórica e da opção preferencial pelos pobres.
Este texto organiza reflexivamente um conjunto de experiências pastorais, dados históricos e referenciais teóricos que fundamentaram pesquisas acadêmicas, vivências pastorais e militância social, particularmente na região Oeste de Goiás, entre as décadas de 1980 e 1990. Ao mesmo tempo, problematiza o atual contexto eclesial, marcado por divisões, disputas ideológicas e enfraquecimento do debate teológico-pastoral, propondo a sinodalidade como horizonte possível de reconstrução do diálogo, da comunhão e da esperança.
1. Igreja, história e transformação social
Desde suas origens, o cristianismo nasceu em meio a conflitos, perseguições e tensões com o poder estabelecido. A mensagem cristã, centrada no amor ao próximo, na justiça, na fraternidade e na dignidade humana, confrontava diretamente as estruturas de dominação do Império Romano. Por essa razão, os primeiros cristãos foram perseguidos, marginalizados e obrigados a viver na clandestinidade até o Edito de Milão, em 313, que garantiu liberdade religiosa.
Ao longo da história, a Igreja buscou estruturar sua doutrina, preservar sua unidade e responder aos desafios de cada época. Contudo, como toda instituição humana, vivenciou disputas internas, resistências à mudança e processos lentos de atualização. A relação entre fé e realidade social sempre esteve no centro dessas tensões, especialmente no que diz respeito à pobreza, à desigualdade e às formas de organização da sociedade.
A partir do século XIX, com a Revolução Industrial, a urbanização acelerada e o agravamento das condições de vida da classe trabalhadora, a chamada “questão social” impôs-se como desafio incontornável. A Igreja, pressionada pelas novas realidades, começou a elaborar respostas mais sistemáticas, inaugurando o caminho da Doutrina Social com a encíclica Rerum Novarum (1891), do Papa Leão XIII. Esse documento representa um marco ao reconhecer os direitos dos trabalhadores, denunciar a exploração e afirmar a dignidade do trabalho humano.
Desde então, a Doutrina Social da Igreja desenvolveu-se por meio de sucessivas encíclicas, aprofundando o compromisso com a justiça, a dignidade humana, a solidariedade e o bem comum. Essa trajetória preparou o terreno para as grandes transformações promovidas pelo Concílio Vaticano II, que abriu definitivamente a Igreja ao diálogo com o mundo contemporâneo.
2. O Concílio Vaticano II e a opção pelos pobres
O Concílio Vaticano II representou um divisor de águas na história da Igreja. Ao afirmar que a Igreja deveria ser “povo de Deus em caminhada”, reconheceu o protagonismo dos leigos, a importância do diálogo ecumênico e inter-religioso, bem como a necessidade de uma presença mais encarnada na realidade social.
Na América Latina, essas orientações ganharam forma concreta nas Conferências Episcopais de Medellín e Puebla, que assumiram explicitamente a opção preferencial pelos pobres como eixo da ação evangelizadora. Essa opção não significava partidarização da fé, mas fidelidade radical ao Evangelho, inspirado na prática de Jesus, que se colocou ao lado dos marginalizados, doentes, pecadores públicos e excluídos.
A partir desse horizonte, emergem as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), espaços privilegiados de leitura popular da Bíblia, organização comunitária, formação política e compromisso social. Nessas comunidades, fé e vida se entrelaçavam por meio do método ver–julgar–agir, favorecendo processos de conscientização e transformação social.
3. Teologia da Libertação: fundamentos, tensões e controvérsias
A Teologia da Libertação nasce nesse contexto como esforço sistemático de reflexão teológica a partir da realidade dos pobres. Seus principais expoentes — Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff, Jon Sobrino, Frei Betto, entre outros — afirmam que a teologia não pode ser mera especulação abstrata, mas deve partir da prática histórica de libertação, iluminada pela Palavra de Deus.
Seu fundamento principal é bíblico e cristológico. A libertação proclamada não se reduz a uma dimensão política, mas abarca a integralidade da pessoa humana, envolvendo aspectos espirituais, sociais, culturais e históricos. Como afirma Carlos Bazarra, “o fundamento da teologia da libertação não pode ser outro senão a Palavra de Deus e, concretamente, Jesus Cristo”.
Entretanto, essa corrente teológica foi frequentemente acusada de reduzir o Evangelho a uma ideologia política, sobretudo pela utilização de instrumentos de análise social inspirados no marxismo. De fato, muitos teólogos recorreram a categorias marxistas para compreender as estruturas de exploração e desigualdade. Contudo, isso se deu de forma crítica e instrumental, não como adesão ideológica.
O próprio Bazarra destaca que, muito antes de Marx, já existia o clamor dos pobres e a resposta evangélica da Igreja. A influência marxista, quando presente, limitou-se à análise das contradições sociais, sem substituir o núcleo teológico-cristão da reflexão.
As tensões com Roma, especialmente durante o pontificado de João Paulo II e a atuação do então cardeal Joseph Ratzinger, revelam as dificuldades da Igreja em lidar com interpretações teológicas que colocavam em questão estruturas tradicionais de poder e autoridade. As instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, embora buscassem salvaguardar a integridade da fé, acabaram por gerar desconfiança, silenciamento e retração das iniciativas pastorais ligadas à libertação.
4. Pastoral da Juventude, formação cidadã e militância social
Na região Oeste de Goiás, particularmente na Diocese de São Luís de Montes Belos, as orientações do Vaticano II e da Teologia da Libertação encontraram terreno fértil. A Pastoral da Juventude tornou-se espaço privilegiado de formação integral, articulando espiritualidade, compromisso social, reflexão crítica e engajamento político.
Entre as décadas de 1980 e 1990, jovens foram mobilizados por meio de encontros, assembleias, cursos bíblicos, grupos de reflexão e ações comunitárias. Esse processo formativo gerou lideranças que passaram a atuar em movimentos sociais, sindicatos, associações comunitárias, partidos políticos e diversas áreas profissionais, levando consigo uma visão crítica da realidade e um compromisso com a transformação social.
Esse fenômeno revela a potência evangelizadora de uma Igreja que confia nos leigos, valoriza a participação e aposta na formação da consciência crítica. Ao mesmo tempo, evidencia o impacto histórico da Teologia da Libertação na construção da cidadania e no fortalecimento da democracia, especialmente em contextos marcados pela ditadura militar e pela exclusão social.
5. Crise contemporânea, polarização e desafios da sinodalidade
Nas últimas décadas, observa-se um processo de retração das pastorais sociais, enfraquecimento das CEBs e crescente polarização ideológica dentro da Igreja. Questões sociais passaram a ser associadas, de forma reducionista, a posições partidárias, gerando desconfiança e conflitos.
O avanço de discursos conservadores, intensificado no contexto político recente, contribuiu para a estigmatização da Teologia da Libertação e para o esvaziamento do debate teológico-pastoral. A fé, muitas vezes, foi instrumentalizada por projetos políticos, produzindo divisões profundas no interior das comunidades.
Diante desse cenário, a proposta de uma Igreja sinodal, defendida pelo Papa Francisco, surge como horizonte promissor. A sinodalidade pressupõe escuta, diálogo, participação, discernimento comunitário e corresponsabilidade. Trata-se de resgatar a dimensão comunitária da fé, superando clericalismos, autoritarismos e polarizações estéreis.
Para que esse processo seja efetivo, é fundamental a atuação corajosa do episcopado, a formação teológica dos leigos e a valorização das experiências históricas que marcaram positivamente a caminhada da Igreja no Brasil.
Considerações finais
A Teologia da Libertação não é um capítulo encerrado da história da Igreja, mas uma memória viva que interpela o presente. Seu legado permanece atual diante das novas formas de pobreza, exclusão e violência que marcam o mundo contemporâneo.
Resgatar sua intuição fundamental — a centralidade dos pobres na vivência da fé — não significa repetir modelos do passado, mas reinterpretar criativamente o Evangelho à luz dos desafios atuais. A sinodalidade, nesse sentido, pode se tornar o espaço privilegiado para reconstruir pontes, curar feridas e reacender a esperança.
A Igreja, fiel à sua vocação, é chamada a ser sinal de justiça, fraternidade e misericórdia. Somente assim poderá continuar sendo fermento de transformação na sociedade e testemunha autêntica do Reino de Deus.
Pedro Claudio
