domingo, 24 de agosto de 2025

Quando a fé sustenta e o caminhar vacila

 

Por Pedro Claudio Rosa – 24 de agosto de 2025


Minha profissão religiosa é coletiva e particular ao mesmo tempo.
Meu caminhar é solitário e comunitário ao mesmo tempo.
Meu viver é único e coletivo ao mesmo tempo.

No entanto, a fé que entranha meus pensamentos e guia minhas ações é minha: íntima, misteriosa, pulsante. A vida é coletiva, mas a morte será solitária, e nesse abismo pessoal só a confiança em Deus pode me sustentar.

Sou como aquela comunidade apontada por Jesus: “Homem de pouca fé, por que duvidaste?” (Mt 14,31). Contudo, anseio ser como aquele que possui fé do tamanho de um grão de mostarda, pois está escrito: “Se tiverdes fé do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta montanha: ‘Passa daqui para lá’, e ela passará; e nada vos será impossível” (Mt 17,20).

Porque ter fé capaz de mover montanhas me leva à plenitude da vida, àquele lugar onde a esperança não desiste e o amor não se apaga.

Creio fielmente na presença de Deus em minha humanidade, não apenas na mão criadora que me formou, mas no convite constante para lançar-me em águas mais profundas, como o Senhor disse a Simão: “Faze-te ao largo, e lançai vossas redes para a pesca” (Lc 5,4).

Quiçá um dia, caminhando sobre as águas como Pedro, eu possa levar uma mensagem de paz. Uma paz que nasce da Palavra – essa espada afiada, viva e eficaz: “Mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12).

No princípio era só a Palavra, e “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Pela Palavra tudo veio à existência, e pela Palavra eu existo.

Que esta Palavra me edifique.
Que me dê resiliência.
Que me faça resistir aos devaneios do mundo.
Que me leve sempre ao centro da vontade de Deus, onde a fé, ainda que pequena, floresce em eternidade.


domingo, 17 de agosto de 2025

Democracia: conceito, fundamentos e desafios

 

Democracia: conceito, fundamentos e desafios

 


Por Pedro Claudio – jornalista e historiador

Texto construído a partir de pesquisas

 

A palavra democracia tem origem na Grécia Antiga, formada por dois termos: demos (povo) e kratos (poder ou governo). Assim, etimologicamente, democracia significa “poder do povo” ou “governo do povo”. Na prática, trata-se de um sistema político em que a soberania reside no povo, exercida diretamente ou por meio de representantes eleitos.

 

O filósofo e jurista italiano Norberto Bobbio (1909–2004), um dos maiores estudiosos da democracia no século XX, define-a não como um regime perfeito, mas como um conjunto de regras do jogo político que garantem a participação e o controle dos cidadãos sobre os governantes. Para Bobbio, a democracia não é apenas um ideal, mas sim um processo institucional que deve assegurar direitos, liberdades e mecanismos de fiscalização do poder.

 

“O problema da democracia não é apenas o de saber quem governa, mas como governa.”

— Norberto Bobbio, O Futuro da Democracia

 

Os pilares da democracia

 

Para que um regime seja efetivamente democrático, alguns princípios básicos devem ser preservados:

 

Direitos individuais e coletivos – Liberdade de expressão, direito de opinião, de escolha política, de organização social e partidária.

 

Instituições fortes e independentes – Poder Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e demais órgãos de controle devem atuar de forma autônoma.

 

Processos legais e devido processo – Nenhum cidadão pode ser condenado sem ampla defesa, provas contundentes e julgamento fundamentado.

 

Presunção de inocência – Até que se prove o contrário, todos são inocentes perante a lei.

 

Respeito à divergência – Ser democrático significa aceitar opiniões diferentes, desde que não envolvam violência, crimes ou desrespeito às leis.

 

Democracia x Autoritarismo

 

Na democracia, um processo judicial segue várias etapas: investigação policial, análise do Ministério Público, direito de defesa, aceitação (ou não) da denúncia por um magistrado, oitiva de testemunhas e, só depois, eventual condenação. É um caminho longo, mas necessário para garantir justiça.

 

No autoritarismo, não há essa garantia: muitas vezes a acusação já é seguida de condenação sumária, sem defesa nem fundamentação legal. É por isso que, apesar de suas imperfeições, a democracia ainda representa o regime político mais seguro para proteger direitos e limitar abusos de poder.

 

Indicações de leitura

 

Norberto Bobbio – O Futuro da Democracia (1984)

 

Robert Dahl – Sobre a Democracia (1998)

 

Alexis de Tocqueville – A Democracia na América (1835)

 

José Afonso da Silva – Curso de Direito Constitucional Positivo (obra fundamental para entender a democracia no Brasil)

 

👉 Em resumo, compreender a democracia exige reconhecer que ela não é apenas “o governo da maioria”, mas um sistema complexo de garantias, responsabilidades e equilíbrios institucionais. Defender a democracia significa respeitar as regras do jogo democrático, mesmo quando pensamos diferente.

 

Objetivo: contribuir para um debate saudável.

Por Pedro Claudio – jornalista e historiador – Texto construído a partir de pesquisas.

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Conheça-te a ti mesmo

 


Conheça-te a ti mesmo

Por Pedro Claudio Rosa

Nos anos 90, encontrei Micheline Lacasse.
Psicóloga canadense, viajante de almas,
trouxe na bagagem um livro que soava mais como um oráculo:
“Conheça-te a ti mesmo”.

Passamos um fim de semana juntos,
entre conversas e silêncios,
e aquela frase ficou em mim como pedra de rio,
rolando por anos no fundo da consciência.

Na juventude, eu jurava que me conhecia.
Sabia o que queria, o que temia,
o que me fazia sorrir ou sangrar.
Mas não sabia nada.

A vida — professora severa —
me levou para salas de aula que eu nunca quis frequentar.
E foi assim que entendi:
há decisões em que não nos reconhecemos,
sobretudo quando somos colocados à prova.

Veio a sequência macabra.
A perda de Severiana, minha sogra,
companheira de rotina e cuidados,
baque seco.
Depois, minha mãe, esteio da família,
conselheira, raiz que nos mantinha reunidos.

E então, o abismo: Marlene.
Vinte e nove anos juntos — desde 19 de maio de 1990.
Trabalhadora, amada pelos filhos, pela comunidade,
única com diploma universitário em nossa família.
E, ainda assim, em 20 de janeiro de 2020,
decidiu partir pelo caminho sem volta.
Quatro anos e ainda não sei deglutir esse fato.

Segurei-me nos filhos, Tauã e Yure.
Mais tarde, Deus me enviou Eva Maria, também viúva,
para que um fosse o esteio do outro.
Hoje, caminhamos juntos, amparando nossas ruínas.

Mas não foi só o seio familiar que sofreu rachaduras.
Perdi amigos que eram faróis:
Roberto Lopes, parceiro de profissão.
Noildo Miguel, homem sábio e lutador.
Diácono Manoel Messias, chefe e amigo,
mesmo nas discordâncias,
meu confidente.
E Ovídio Joaquim dos Santos,
companheiro de missão na Igreja.

Como conviver com isso?
Não sei.
A gente fica aéreo, fora dos trilhos,
tomando caminhos que não seriam os desejados.

Peço a Deus que não me traga mais despedidas,
até que eu mesmo seja chamado
à eternidade —
esse campo fértil de incógnitas e fé.

E volto à pergunta de Micheline:
Conhece-te a ti mesmo?

Sou ministro ordenado da Igreja Católica.
Desde a infância, servi nos altares,
mas agora estou distante da missão,
em um relacionamento que a lei da Igreja proíbe.
Não me reconheço, mas também não me nego.
Talvez seja hora de reinventar a missão,
ou talvez seja hora de apenas caminhar.

Hoje sei:
não nos conhecemos.
Não conhecemos nossos caminhos.
Não somos donos do destino,
por mais que nos agarremos a essa ilusão.

Fatos nos empurram para atos.
Atos abrem trilhas.
E trilhas nos levam a paisagens
que nunca sonhamos.

Uma coisa é certa:
enquanto eu respirar,
quero sentir a alegria possível.
Que Deus me guie —
mesmo por estradas incertas —
para um mundo melhor.
Eu espero.