quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Reflexão e debate sobre a atualidade, se puder comente para enriquecer.

 

Pedro Claudio Rosa em 07 de agosto de 2025


Diálogo entre fé e política: um debate entre amigos

Recebi recentemente uma provocação argumentativa vinda de um velho amigo evangélico, Valdiron Dias dos Santos. Somos conhecidos de longa data, embora hoje estejamos distantes geograficamente. Ainda assim, seguimos conectados pelo respeito mútuo e pelas conversas que atravessam o tempo, a fé e, claro, as questões políticas e sociais do nosso cotidiano.

Valdiron me presenteou com uma série de reflexões polêmicas — e também bastante comuns no debate atual — sobre a ideologia de esquerda, o comunismo, o capitalismo e até mesmo sobre a posição divina em relação à política, com base em citações bíblicas. Como não costumo fugir de um bom diálogo, decidi responder com o mesmo espírito fraterno, buscando um olhar histórico, teológico e humano sobre essas questões que tanto nos dividem, mas que também podem nos enriquecer quando debatidas com respeito.

Abaixo, compartilho o comentário original de Valdiron e, em seguida, a minha resposta, não para vencer uma discussão, mas para promover o entendimento — porque pensar diferente não precisa significar estar em lados opostos da vida.


Comentário original de Valdiron Dias:

“Só não entendo como tem gente que ainda defende esse sistema ideológico de esquerda, mesmo vendo a real situação dos países liderados por ela. E o pior, sequer conhecem a biografia dessa religião disfarçada de sistema político. E para piorar, onde você já viu um comunista repartir seus bens com os pobres? Uai, mas não é isso que significa ‘tudo em comum’? Não é mesmo o ápice da hipocrisia combater o capitalismo veementemente e viver totalmente nele?

E para piorar, ninguém dessa gente quer ir para um país comunista kkkk. Uai, mas esse regime não é digno de ser seguido como falam? Vê se não são um bando de idiotas que enganam a si próprios? Não conseguem apontar um exemplo bom num país desses, e nenhuma invenção criada por um esquerdista.

Até Deus é da direita quando disse: ‘Porei as ovelhas à minha Direita, e os bodes à esquerda.’”


Resposta ao texto de Valdiron Dias — por Pedro Cláudio

Meu amigo Valdiron,

Li com atenção sua mensagem e reconheço que ela expressa um sentimento comum entre muitas pessoas que, cansadas das distorções ideológicas e da hipocrisia política, acabam por rejeitar tudo o que pareça diferente daquilo que lhes foi ensinado como "certo". Respeito profundamente sua opinião, mas gostaria de oferecer uma reflexão, com base em história, teologia e vivência cidadã.

Antes de tudo, é importante lembrar que os termos "esquerda" e "direita" nasceram durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII. Eram posições físicas no parlamento: à esquerda, os que defendiam reformas sociais e o fim dos privilégios da nobreza; à direita, os conservadores, defensores do status quo. Com o tempo, essas posições passaram a representar valores mais amplos: igualdade, justiça social e coletividade de um lado; propriedade, tradição e liberdade individual de outro. Nenhum dos dois lados, por si só, é totalmente bom ou mau. O problema começa quando se absolutiza qualquer uma dessas ideologias como se fosse religião — como você mesmo critica.

Você diz que a esquerda é uma “religião disfarçada de sistema político”. Isso pode até ser verdade para alguns radicais, mas vale lembrar que o mesmo pode ser dito de certas formas de direita cristã que usam a fé como ferramenta de dominação política — o que chamamos de teologia do poder, muitas vezes sem base nos Evangelhos.

Quando você menciona: “onde já se viu comunista repartir os bens com os pobres?”, te respondo com a própria Bíblia. Em Atos dos Apóstolos 2,44-45 está escrito:

“Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e os distribuíam a todos, conforme a necessidade de cada um.”

Essa era a primeira comunidade cristã. Não se tratava de ideologia política, mas de vivência de fé. Isso, se formos rigorosos, se aproxima muito mais do ideal comunal (de onde vem o termo “comunismo”) do que do individualismo meritocrático do sistema atual.

É claro que o comunismo como modelo de Estado fracassou em vários contextos. Mas devemos lembrar que o capitalismo também gera exclusão, desigualdade, exploração de mão de obra e crise ambiental. A miséria de milhões não pode ser explicada apenas como “falta de esforço” dos pobres, como a meritocracia sugere. Precisamos pensar em justiça, não apenas em liberdade.

Você pergunta por que quem critica o capitalismo vive dentro dele. É simples: porque o capitalismo é o sistema dominante e global, não há escapatória prática — mas isso não impede que pensemos alternativas mais humanas dentro dele. Não é hipocrisia querer reformar o que está errado. É coragem.

E sobre a ideia de que “até Deus é de direita”, por dizer que colocará as ovelhas à direita e os bodes à esquerda, permita-me um olhar teológico mais cuidadoso. Na simbologia bíblica, a “direita” é tradicionalmente associada à bênção e à autoridade (como em “assentar-se à direita de Deus”), mas não tem relação com política partidária moderna. Jesus também diz: “os últimos serão os primeiros”, “bem-aventurados os pobres”, e que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.”

Seria, então, o Cristo um revolucionário social? Talvez sim. Mas antes disso, ele foi um anunciador da justiça e da misericórdia — valores que hoje estão escassos em qualquer espectro político.

Por fim, deixo claro que não acredito em nenhum modelo político absoluto. Esquerda, direita, centro — tudo pode servir ao bem comum, se for guiado pela ética, pela compaixão e pela busca sincera por justiça. A ideologia deve estar a serviço da vida, nunca acima dela.

Agradeço por podermos dialogar, mesmo em discordância. Esse tipo de conversa nos enriquece e evita que viremos massa de manobra de líderes que, estes sim, muitas vezes não creem nem em Deus nem no povo — apenas em seus próprios interesses.

Vamos seguindo, meu irmão. Com fé, respeito e sabedoria, como pediu Salomão.


Novo comentário de Valdiron: a resposta ao meu contra-argumento

Em continuidade ao nosso diálogo, Valdiron compartilhou um novo comentário, agora reforçando sua perspectiva com maior ênfase espiritual e doutrinária. Reproduzo abaixo seu posicionamento:

“Concordo em parte com você, Pedro, em alguns aspectos, haja vista que não definimos a política como regra áurea de fé, como também nenhuma religião. Ambas não definem o padrão ideal como um todo, mas precisamos avaliar aquela que mais se aproxima dos arcanos de Deus.

Não sei se você conhece a base do comunismo e de como ele foi formado, custando a vida de mais de cem milhões de pessoas — mas tudo bem. Eu só não entendo como uma pessoa que professa ser cristã em Cristo pode defender uma ideologia tão sanguinária como é o caso da esquerda, que foi formada numa afirmativa anticristã, sob deboche agnóstico do próprio cristianismo.

Aliás, por detrás de qualquer ideologia que vá chocar-se contra os preceitos cristãos, existe um panteão de deuses — e isso sim caracteriza uma oposição satânica clara.

O fato de Deus definir lado direito e esquerdo nos esclarece que existe um modo certo e outro errado. Um que será aprovado, e outro, desaprovado por Ele. Isso está definido desde o Éden, onde tudo começou por Caim e Abel — não só no lado espiritual, como também no físico. Qualquer crença, ideologia, status quo que não esteja fundamentado no modo estabelecido por Deus será desaprovado, como aconteceu com Caim que não quis reconhecer e voltar ao modo estabelecido por Deus ali.

Analisemos os parâmetros e veremos qual modo — tanto religioso quanto político — mais se aproxima de Deus. O modo certo define o errado, e não o contrário. Os dois fogos sagrados no Éden nos dão direção em toda nossa conduta de vida. Não há como maquiar essa realidade de vida.

Salomão não tem nenhuma moral para nos ditar o modo correto de vida. Ele só foi salvo por causa de seu pai Davi. Estamos muito além de Salomão — temos Jesus Cristo!”

Meu irmão Valdiron,

Fico grato pela continuidade da nossa conversa. Vejo no seu comentário zelo pela fé e pela verdade — e isso, sinceramente, é algo que respeito muito. Você tem uma preocupação legítima com a coerência entre a fé cristã e as ideias que escolhemos apoiar no campo político. É exatamente por isso que esse diálogo continua tão necessário.

Você diz que precisamos avaliar qual sistema mais se aproxima dos arcanos de Deus. Concordo plenamente. E acredito que essa avaliação deve ser feita com honestidade, espírito crítico e humildade — especialmente porque, como você mesmo disse, nem a política e nem a religião humana são padrões absolutos ou perfeitos.

Agora, quero destacar alguns pontos importantes do seu comentário e responder com calma:


1. “O comunismo custou cem milhões de vidas.”

Sim, regimes autoritários que se disseram comunistas, como o stalinismo na União Soviética, ou o maoísmo na China, cometeram crimes gravíssimos contra a humanidade. Isso é inegável e deve ser condenado por qualquer pessoa de bom senso.

No entanto, é preciso cuidado ao identificar toda ideia de esquerda ou de justiça social com esses regimes específicos. Da mesma forma que não seria justo acusar todo cristianismo de ser igual à Inquisição ou às Cruzadas, também não é justo dizer que todo pensamento de esquerda é anticristão ou assassino.

Há muitas vertentes de esquerda — assim como há muitas formas de viver a fé cristã. A esquerda democrática, por exemplo, busca igualdade social, defesa dos pobres, direitos humanos e dignidade do trabalho — princípios que dialogam muito com os ensinamentos de Jesus.


2. “Não dá para entender como um cristão pode apoiar uma ideologia anticristã.”

Valdiron, a sua afirmação parte de uma generalização que, sinceramente, não corresponde à realidade. Boa parte dos cristãos ao redor do mundo — inclusive teólogos, missionários e líderes religiosos — atuam politicamente inspirados por ideais de solidariedade, partilha, justiça social, combate à desigualdade... E muitos deles se identificam com valores de esquerda por verem nesses princípios um reflexo do Evangelho.

Foi o caso de Dom Hélder Câmara, arcebispo brasileiro, perseguido por defender os pobres. Ou de Martin Luther King Jr., pastor batista que lutou pelos direitos civis nos EUA. Nenhum deles pregou comunismo estatal, mas todos foram profundamente “de esquerda” no sentido ético e profético — e radicalmente cristãos.


3. “Por trás dessas ideologias há um panteão de deuses, oposição satânica.”

Essa parte do seu argumento é a que mais me preocupa. Porque quando rotulamos ideologias (e seus defensores) como “satânicas”, perdemos a possibilidade do diálogo e abrimos espaço para o ódio, o julgamento precipitado e até a perseguição — coisas que, como você bem sabe, Jesus nunca ensinou.

O apóstolo Paulo nos orienta a “provar tudo e reter o que é bom” (1 Ts 5:21). Há ideias boas na direita e há ideias boas na esquerda. E há distorções em ambos os lados. Julgar o todo por seus piores exemplos é sempre um risco.


4. “O lado direito e o lado esquerdo: Caim e Abel, certo e errado.”

Essa leitura dualista, onde um lado representa o bem e outro o mal absoluto, pode ser perigosa. Deus não é partidário, e a salvação não depende de um alinhamento político. A história de Caim e Abel não se resume a “um escolheu o sistema certo, o outro escolheu errado” — ela fala de atitude do coração, de intenção e de relação com Deus.

Sobre a metáfora da direita e da esquerda nas Escrituras: sim, há uma simbologia associada à bênção, mas isso não significa que Deus esteja alinhado com uma ideologia política moderna. Afinal, os conceitos de “esquerda” e “direita” surgiram mais de 1700 anos depois de Cristo. Não faz sentido forçar uma interpretação política onde havia apenas linguagem simbólica espiritual.


5. “Salomão não tem moral. Temos é Jesus Cristo.”

Sim, temos Jesus! E Ele mesmo disse: “Maior que Salomão está aqui”. Mas negar o valor das Escrituras inspiradas, como Provérbios ou Eclesiastes, porque Salomão errou, seria também desconsiderar outros homens de Deus que falharam — como Moisés (que matou um egípcio), Davi (que pecou gravemente), Pedro (que negou Jesus) e tantos outros.

Deus escreve certo por linhas tortas, amigo. Salomão errou, mas sua sabedoria — que ele mesmo reconheceu como dom divino — segue nos ensinando até hoje. E ela nos convida a buscar discernimento, humildade e justiça.


Encerrando com o essencial

Meu querido Valdiron, reafirmo: não sou defensor cego de nenhum sistema. Mas também não creio que a fé cristã deva ser refém de um único alinhamento ideológico. Jesus veio para libertar, não para aprisionar o pensamento humano em categorias políticas fixas.

A fé que me move é a que se traduz em ação pelos pobres, pelos que sofrem, pelos esquecidos. Se isso me aproxima de ideias consideradas “de esquerda”, que assim seja. Mas jamais serei conivente com ideologias que neguem a dignidade humana, venham de onde vierem.

Continuo aberto ao diálogo e agradecido por podermos conversar com profundidade, mesmo em discordância. Que sigamos sendo irmãos — não por pensarmos igual, mas por buscarmos juntos o Reino que, como disse o Mestre, não é deste mundo, mas já pode ser sinalizado nas nossas atitudes.

Com carinho e respeito,
Pedro Cláudio

 


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