Crônica: A minha força pode expor minha fraqueza
Por Pedro Cláudio
Vivemos tempos em que o grito é confundido com razão,
e a força — muitas vezes disfarçada de opinião — nada mais é que a máscara de
uma fragilidade mal resolvida. Há em nós, humanos, uma mania antiga e
persistente: querer conduzir o enredo, ditar o rumo, escrever o último capítulo
da história como se fôssemos os únicos autores da verdade.
Isso sempre existiu, mas neste início de século XXI,
tornou-se um espetáculo diário. Nas redes sociais, qualquer um se transforma em
especialista. Não importa o tema: ciência, política, religião ou até
meteorologia. O saber cede espaço à convicção. Não se consulta a fonte,
ignora-se o contexto, e o pretexto é sempre o mesmo — eu tenho o direito de
opinar.
Sim, todos temos esse direito. Mas o que poucos
lembram é que junto dele vem o dever da responsabilidade. Quando a minha força
de opinar se torna uma imposição, quando transformo minha voz em sentença e meu
palanque em tribunal, corro o risco de revelar, sem perceber, a minha maior
fraqueza: o medo de estar errado.
E aí está o problema. Passo a desqualificar tudo que
me contraria. Se a notícia me incomoda, o problema não sou eu — é o jornal, é a
imprensa, é o jornalista. De um segundo para o outro, passo a rotular: esquerdista,
direitista, comunista, golpista, vendido. O adjetivo que escolho depende, é
claro, da minha própria posição diante dos fatos.
Em vez de mudar de canal, desligar a TV, rolar a tela
para cima ou buscar uma nova fonte, faço questão de consumir o conteúdo só para
atacá-lo. Parece contraditório, e é. Mas também é humano. E perigoso.
Mais perigoso ainda é quando essa opinião rasa ganha
microfone, púlpito, tribuna. Quando uma liderança, escolhida para representar
um grupo, ignora o coletivo e impõe a sua visão como se fosse única. Essa força
performática, teatral, gritante — que se pretende firmeza — pode colocar em
risco todo um conjunto que não foi consultado, mas que será julgado pela fala
de um só.
A humanidade, que já assistiu “bestializada” a muitos
absurdos, como bem descreveu Aristides Lobo em 1889, agora assiste atônita às
novas formas de manipulação. Lutamos ao lado de quem prega a intolerância,
idolatramos discursos que ignoram os pobres, inferiorizam os negros, vilanizam
os indígenas. E tudo isso em nome de um progresso que não hesita em arrancar
árvores, contaminar rios, sufocar florestas.
Talvez um dia sejamos capazes de entender que a
verdadeira força está em saber ouvir. Que o verdadeiro poder está em recuar,
reconhecer limites, permitir o contraponto. E que a maturidade não se mede em
decibéis, mas na sabedoria de saber quando calar é o maior gesto de respeito.
Porque, no fim das contas, a minha força — quando
usada para calar o outro — não passa de um reflexo do que mais me apavora: o
vazio que grita dentro de mim.
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