sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Mundo atual, eu tenho a força



Crônica: A minha força pode expor minha fraqueza
Por Pedro Cláudio

Vivemos tempos em que o grito é confundido com razão, e a força — muitas vezes disfarçada de opinião — nada mais é que a máscara de uma fragilidade mal resolvida. Há em nós, humanos, uma mania antiga e persistente: querer conduzir o enredo, ditar o rumo, escrever o último capítulo da história como se fôssemos os únicos autores da verdade.

Isso sempre existiu, mas neste início de século XXI, tornou-se um espetáculo diário. Nas redes sociais, qualquer um se transforma em especialista. Não importa o tema: ciência, política, religião ou até meteorologia. O saber cede espaço à convicção. Não se consulta a fonte, ignora-se o contexto, e o pretexto é sempre o mesmo — eu tenho o direito de opinar.

Sim, todos temos esse direito. Mas o que poucos lembram é que junto dele vem o dever da responsabilidade. Quando a minha força de opinar se torna uma imposição, quando transformo minha voz em sentença e meu palanque em tribunal, corro o risco de revelar, sem perceber, a minha maior fraqueza: o medo de estar errado.

E aí está o problema. Passo a desqualificar tudo que me contraria. Se a notícia me incomoda, o problema não sou eu — é o jornal, é a imprensa, é o jornalista. De um segundo para o outro, passo a rotular: esquerdista, direitista, comunista, golpista, vendido. O adjetivo que escolho depende, é claro, da minha própria posição diante dos fatos.

Em vez de mudar de canal, desligar a TV, rolar a tela para cima ou buscar uma nova fonte, faço questão de consumir o conteúdo só para atacá-lo. Parece contraditório, e é. Mas também é humano. E perigoso.

Mais perigoso ainda é quando essa opinião rasa ganha microfone, púlpito, tribuna. Quando uma liderança, escolhida para representar um grupo, ignora o coletivo e impõe a sua visão como se fosse única. Essa força performática, teatral, gritante — que se pretende firmeza — pode colocar em risco todo um conjunto que não foi consultado, mas que será julgado pela fala de um só.

A humanidade, que já assistiu “bestializada” a muitos absurdos, como bem descreveu Aristides Lobo em 1889, agora assiste atônita às novas formas de manipulação. Lutamos ao lado de quem prega a intolerância, idolatramos discursos que ignoram os pobres, inferiorizam os negros, vilanizam os indígenas. E tudo isso em nome de um progresso que não hesita em arrancar árvores, contaminar rios, sufocar florestas.

Talvez um dia sejamos capazes de entender que a verdadeira força está em saber ouvir. Que o verdadeiro poder está em recuar, reconhecer limites, permitir o contraponto. E que a maturidade não se mede em decibéis, mas na sabedoria de saber quando calar é o maior gesto de respeito.

Porque, no fim das contas, a minha força — quando usada para calar o outro — não passa de um reflexo do que mais me apavora: o vazio que grita dentro de mim.

 


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