Crônica – Vamos pensar um pouco?
Por Pedro Cláudio – De Iporá, Goiás
Somos burros de carga.
Não os de quatro patas, mas os de CPF. E o pior: burros contundidos,
machucados, vilipendiados. Vivemos puxando o carro pesado de uma sociedade que
aprendeu a fazer de nós suporte — da elite, do sistema, da fé, dos impostos, do
luxo alheio.
O cidadão comum sempre
sustentou o topo. A pirâmide social não virou de cabeça pra baixo, só ganhou
uma maquiagem. Éramos servos na Idade Média, agora somos “contribuintes”. Antes
o rei mandava cortar cabeças, hoje mandam cortar salários, direitos e esperança.
É a mesma nobreza, só que com crachá e redes sociais.
Vejamos: pagamos impostos
em tudo. No pão, no feijão, na luz, no combustível. Pagamos IPVA para ter
direito a estradas — e, como se não bastasse, ainda enfiaram o pedágio no meio.
“Pra quê?”, você me pergunta. Eu também me pergunto.
Pagamos pela energia e
ainda cobramos de nós mesmos a iluminação pública. Pra quê?
Pagamos por escolas
públicas, mas temos que sustentar colégios militares — a “solução mágica” para
a educação — pagos por você, mantidos pelo Estado. Pra quê?
E, em nome de Jesus,
ainda nos cobram 10% do que ganhamos, o tal dízimo. Dizem que é pra “manter a
obra”. Que obra? Obra de ostentação? Templos monumentais, carros de luxo,
palácios para os “ungidos”? O povo crê, oferta, sofre — e ora pela salvação dos
seus próprios opressores. Pra quê?
Estamos vivendo o replay
mal dublado da Revolução Francesa. Os chicotes mudaram de mão, mas a chibata
segue firme nas costas do povo. Até nossos juízes agora querem
“auxílio-moradia”. Pra quê? Moram em castelos? Será que o aluguel do castelo tá
caro?
A humanidade insiste em
viver esse teatro. Uns poucos no palco, a maioria na plateia — aplaudindo,
pagando o ingresso, e limpando o chão no fim. As cidades já não são mais
invadidas como antes, mas cada cidadão é uma cidade saqueada por dentro. Um
município de carne, com rua chamada “Esperança”, bairro “Dignidade”, ponte
“Oportunidade” — tudo interditado.
A carga é dos pobres.
Sempre foi. E a luta é silenciosa: cada um tentando passar o peso ao ombro do
outro. O rico vive leve, flutua. O pobre sua, mas sorri na selfie. Afinal,
somos racionais, dizem. Mas será que somos mesmo funcionais?
Talvez sejamos apenas...
resilientes. Ou resignados. Ou loucos. Ainda tentando achar lógica num sistema
onde quem carrega o mundo nas costas nunca chega ao topo.
Vamos pensar um pouco?
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