sexta-feira, 16 de março de 2018

Crônica – Vamos pensar um pouco?


Crônica – Vamos pensar um pouco?
Por Pedro Cláudio – De Iporá, Goiás

Somos burros de carga. Não os de quatro patas, mas os de CPF. E o pior: burros contundidos, machucados, vilipendiados. Vivemos puxando o carro pesado de uma sociedade que aprendeu a fazer de nós suporte — da elite, do sistema, da fé, dos impostos, do luxo alheio.

O cidadão comum sempre sustentou o topo. A pirâmide social não virou de cabeça pra baixo, só ganhou uma maquiagem. Éramos servos na Idade Média, agora somos “contribuintes”. Antes o rei mandava cortar cabeças, hoje mandam cortar salários, direitos e esperança. É a mesma nobreza, só que com crachá e redes sociais.

Vejamos: pagamos impostos em tudo. No pão, no feijão, na luz, no combustível. Pagamos IPVA para ter direito a estradas — e, como se não bastasse, ainda enfiaram o pedágio no meio. “Pra quê?”, você me pergunta. Eu também me pergunto.

Pagamos pela energia e ainda cobramos de nós mesmos a iluminação pública. Pra quê?

Pagamos por escolas públicas, mas temos que sustentar colégios militares — a “solução mágica” para a educação — pagos por você, mantidos pelo Estado. Pra quê?

E, em nome de Jesus, ainda nos cobram 10% do que ganhamos, o tal dízimo. Dizem que é pra “manter a obra”. Que obra? Obra de ostentação? Templos monumentais, carros de luxo, palácios para os “ungidos”? O povo crê, oferta, sofre — e ora pela salvação dos seus próprios opressores. Pra quê?

Estamos vivendo o replay mal dublado da Revolução Francesa. Os chicotes mudaram de mão, mas a chibata segue firme nas costas do povo. Até nossos juízes agora querem “auxílio-moradia”. Pra quê? Moram em castelos? Será que o aluguel do castelo tá caro?

A humanidade insiste em viver esse teatro. Uns poucos no palco, a maioria na plateia — aplaudindo, pagando o ingresso, e limpando o chão no fim. As cidades já não são mais invadidas como antes, mas cada cidadão é uma cidade saqueada por dentro. Um município de carne, com rua chamada “Esperança”, bairro “Dignidade”, ponte “Oportunidade” — tudo interditado.

A carga é dos pobres. Sempre foi. E a luta é silenciosa: cada um tentando passar o peso ao ombro do outro. O rico vive leve, flutua. O pobre sua, mas sorri na selfie. Afinal, somos racionais, dizem. Mas será que somos mesmo funcionais?

Talvez sejamos apenas... resilientes. Ou resignados. Ou loucos. Ainda tentando achar lógica num sistema onde quem carrega o mundo nas costas nunca chega ao topo.

Vamos pensar um pouco?

 


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