O Dono da Bola
Histórias
da vida são como reprises de um velho filme: repetidas, mas sempre com um
detalhe novo. Certa vez, em minha cidade Iporá, no interior de Goiás, nos anos
70, o cotidiano era bem diferente do de hoje. Não havia celular, internet nem
televisão para todos — e as que existiam eram em preto e branco, com imagem
tremida e som indecifrável em dias de chuva. Nosso mundo cabia no rádio. Esse
sim era o rei da comunicação. Tínhamos o Tarzan, O Homem de Seis Milhões de
Dólares, Daniel Boone, entre outros heróis que só existiam nas ondas sonoras ou
na tela rarefeita dos poucos aparelhos de TV.
Mas
o verdadeiro passatempo era o futebol. As peladas de fim de tarde reuniam quase
toda a molecada da rua. O campo? Um terreno de terra batida, às vezes com mais
buraco que chão. Os gols eram improvisados com duas estacas fincadas no chão,
sem travessão, sem rede. Jogávamos descalços, com calções remendados e, muitas
vezes, sem camisa. O uniforme era a coragem e a vontade.
Tinha
sempre aquele — o dono da bola. Era o menino cuja família tinha uma condição um
pouco melhor, e ele ostentava o poder: era dono do objeto mais valioso daquele
universo. E, como era de se esperar, era também o único jogador que nunca
ficava de fora. Mesmo sem ser habilidoso, era titular absoluto. Ele escolhia os
times, puxava os craques para o seu lado e, claro, quase sempre ganhava. Até
que um dia, o imprevisto aconteceu: perdeu.
Na
regra do racha, quem perdia saía pra dar vez a outro. Mas o dono da bola não
aceitou. Fez bico, colocou a bola debaixo do braço e foi embora pisando duro,
como um adolescente contrariado. Acabou com a brincadeira. Só não acabou com a
nossa vontade de jogar. Improvisamos com o que tínhamos: uma lobeira — fruta
dura, redonda e traiçoeira, que feria os pés descalços, mas não nos impedia de
seguir jogando. Era isso ou encarar a tarde em casa, ouvindo rádio e esperando
a noite escura, sem energia e sem nada para fazer.
Anos
depois, percebo como aquela cena se repete no mundo dos grandes. Hoje temos
donos da bola em muitos espaços — poderosos que, ao se verem ameaçados por uma
união dos pequenos, ameaçam recolher o brinquedo. “Ou aceitam minhas regras, ou
o jogo acaba”. E aí ficamos todos nós, os descalços do sistema, com o mesmo
dilema: ou nos machucamos chutando lobeiras, ou assistimos a tarde acabar sem
jogo, sem riso e sem escolha.
A
verdade é que o dono da bola pode até sair emburrado, mas quem tem fome de
jogar sempre encontra um jeito. Mesmo que doa nos pés.
Pedro Claudio jornalista, radialista historiador estudante de teologia